I Seminário Observare

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O Grupo de Pesquisa/CNPq Observare realizará o seu primeiro seminário no dia 21 de setembro de 2016, das 19 às 22h, no Auditório da Didática V, Campus São Cristóvão da Universidade Federal de Sergipe/UFS. O tema é “Política, Religião e Sexualidade no Ambiente Escolar” e contará com a presença de especialistas no assunto, como o professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, Rodorval Ramalho (“Projeto Escola Sem Partido”), a gestora da Secretaria Estadual de Educação, Gabriela Zelice (“Ensino Religioso no Contesto da SEED”) e o professor Manuel Alves do Prado Netto (“Sexualidade na Escola”), além da exposição de paineis informativos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As inscrições podem ser feitas pelo endereço http://www.sigaa.ufs.br.

  • Realização: Observatório Multidisciplinar de Religiões e Religiosidades (Observare)
  • Apoio: Universidade Federal de Sergipe/UFS, Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião/PPGCIR, Núcleo de Graduação em Ciências da Religião/NCR, Unidade Estadual de Sergipe do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística/IBGE/UE/SE/GAB.

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11 de setembro de 2001, Congonhas-MG

Já te perguntaram onde você estava no dia 11 de setembro de 2001? A data fatídica do ataque às Torres Gêmeas (WTC), em Nova York, completa quinze anos. Os impactos na sociabilidade do planeta ainda estão em pleno processo de acomodação. Talvez ainda estejam pelas próximas décadas. Um dia impossível de ser esquecido, numa oportunidade trágica de ver a História sendo escrita em tempo real.

Amanheci naquela terça-feira, que tinha mesmo tudo para ser diferente, em solo mineiro. Recém iniciara a pesquisa de doutorado em Ciências Sociais, pela Universidade Federal da Bahia, àquela altura muito interessado nas práticas votivas do santuário que revelou os ex-votos como o meu principal objeto de pesquisa. Fui à cidade de Congonhas (poeticamente chamada, no passado, de Congonhas do Campo) em busca de, pela segunda vez, observar a festa do Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos, celebração que sempre acontece entre os dias 07 e 14 de setembro, desde 1779.

Planejei à risca a visita e todo o trabalho em campo, que seria relativamente curto (de 09 a 12 de setembro). Meus objetivos eram realizar uma observação sistemática, fotografar, catalogar as ofertas votivas e aplicar um questionário aos fiéis, com vistas a mapear o movimento dos romeiros e determinar por que caminhos um devoto se envolve com a promessa e como se comporta nas diversas fases de uma graça alcançada (origem e destino do romeiro, tempo de permanência na cidade, detalhes sobre a própria devoção, a consagração do voto e a eventual produção e aparição do ex-voto). Mas o campo é vivo e dinâmico. Já no primeiro dia, um iluminado e longo domingo, tive a oportunidade de me defrontar com elementos transversais à pesquisa que eu não contava: a vitalidade dos discursos dos sujeitos (em grande medida diferente das expectativas e evidências que o discurso científico sobre a fé sugeria, o saudável embate êmico x ético), as relações sociais que os integravam e as posições que estes sujeitos ocupavam naquele sistema, o risco de invasão da intimidade do fiel, em seu momento de profundo envolvimento espiritual, as vivíssimas fronteiras do sagrado, em muito pouco obedientes às determinações eclesiásticas…

Naquela segunda visita à festa, mais uma vez me chamou a atenção a divisão do seu espaço social. Enquanto muitos fiéis formavam enormes filas para ver a imagem do Bom Jesus no interior do Santuário ou mesmo para participar da “Entrevista aos Romeiros” – um depoimento in loco que era transmitido por rádio em amplitude modulada (AM/OM, Ondas Medias) e em Ondas Tropicais (OT) – tantos outros se espalhavam pelas estreitas ruas em torno da Basílica. As igrejas barrocas mineiras, via de regra, têm uma área interna muito reduzida, apesar do luxo e suntuosidade expostos. Quase que regidos por uma pauta, os fiéis se apresentavam (pronunciam nome completo e idade), falavam da sua cidade de origem, faziam as menções dos parentes ausentes, apresentavam seus pedidos (votos) ou agradecimentos e confirmavam a hora e dia de retorno às suas casas. As caixas de som se espalhavam pela área das Capelas dos Passos e pelos lados da igreja, produzindo um som confuso, misto dos cânticos das missas com as mensagens de fé, adicionados aos altos volumes musicais das barracas próximas, um fundo musical exuberante e irregular, numa autêntica profusão barroca.

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“Entrevista aos Romeiros”, em frente à Igreja Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG, setembro/2001. Foto: Luís Américo Bonfim.

Dentro de toda esta movimentação, sazonal por excelência, muitas pessoas da cidade e dos seus arredores lucram com a festa. São vendedores profissionais e de ocasião, que durante os oito dias do Jubileu obtêm recursos para meses. O acesso à igreja, que em dias comuns se faz em uns cinco minutos, nos dias da festa levou mais de vinte. No caminho onde normalmente não era permitida a circulação de veículos automotores, mal se podia andar a pé. A feira se estendia pelas ruas de trás da Basílica, parecendo não mais terminar.

 

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Aspecto da feira do Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG, setembro/2001. Foto: Luís Américo Bonfim.

A movimentação comercial, que historicamente se destaca como um dos pontos altos da festa, naquele ano parecia mais agitada. As vielas e os becos apertados ficavam ainda menores para atender à massa de compradores, que em muitos casos, a depender da sua origem, tinham na feira a principal oportunidade de compra do ano. O comércio como uma expressão “profana” da festa me pareceu, novamente, algo intrigante. No meu segundo dia no campo, 10 de setembro, decidi, de maneira criteriosa, estabelecer uma contagem do universo das barracas que ocupavam as principais ruas nas imediações do templo, uma espécie informal de “censo do comércio informal”. O critério para se considerar uma barraca como “válida” levou em conta a área ocupada, o volume e a variedade dos produtos disponíveis e a presença de balcões e expositores – condições suficientes para que o comerciante pudesse obter um alvará, expedido pela Secretaria Municipal da Fazenda e pela própria Basílica, que regulamentava o uso do espaço e a autorização de funcionamento.

Após idas e vindas, contabilizei 723 barracas, que vendiam, principalmente, roupas e confecções (em grande parte falsificação de famosas marcas), acessórios do vestuário, produtos eletrônicos, CD’s (na quase totalidade dos casos, pirataria) e alimentos. Pode parecer estranho, mas ficou comprovado (mais ainda após ouvir os depoimentos de antigos habitantes da cidade) que, mesmo historicamente, boa parte dos fiéis que se dirigem a Congonhas por ocasião da festa do Jubileu o faz motivado pelo diversificado comércio sazonal, que se estende ainda por uma semana depois da festa religiosa.

As barracas tomavam a frente das tradicionais lojinhas de souvenirs, concorrendo diretamente com os estabelecimentos autorizados, o que não chegava a gerar nenhum conflito. Estas mesmas lojas perenes forneciam os famosos “gatos” de energia elétrica, que possibilitavam a ligação dos diversos aparelhos eletroeletrônicos (liquidificadores, fornos de microondas, aparelhos de som) que alimentavam a agitada feira. A igreja de São José Operário, encravada no meio da ladeira, chegava a desaparecer por trás das ruidosas instalações. O primeiro dia em campo me proporcionou uma ligação quase orgânica com os espaços comerciais e a gente que estava de passagem laboriosa pela cidade.

 

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Aspecto da Rua Bom Jesus, com igreja de São José Operário em segundo plano, Congonhas-MG, setembro/2001. Foto: Luís Américo Bonfim.

A famosa terça-feira amanheceu nublada e com clima bem ameno. Revisitei a Sala dos Milagres, fotografei detalhes da festa, transitei pelas ruas sem pressa, tentando encontrar algo de novo em suspensão. Numa daquelas ruidosas barracas, fui tomado por uma visão que num primeiro instante me pareceu trivial: na tela da TV, um dos ícones da moderna arquitetura norte-americana em chamas. Seria apenas a cena de um filme qualquer, não fosse um crescente burburinho em torno de algo que ainda era muito mal explicado. O máximo volume do pequeno televisor não era suficiente para esclarecer o que acontecia. As pessoas chegavam, curiosas, e suas faces apresentavam sempre o mesmo espanto: “o que está acontecendo???” Naquela época não existiam smartphones e uma conexão com a internet, naquele lugar, era algo restrito apenas a algumas poucas residências. Havia algo errado no mundo, algo que, catastroficamente, ainda não acabara de acontecer, e não sabíamos ao certo o que era. Alguns falavam em acidente, explosão, outros em ataque terrorista. Num piscar de olhos, a TV  transmitia, em tempo real  o choque de outro avião à segunda torre. E em instantes os prédios desmoronavam… A coisa era realmente séria! Muitas outras informações imprecisas começaram a chegar, sempre sob uma dificílima escuta: ataque ao Pentágono, queda de um quarto avião na Pensilvânia. Aquele terceiro dia em campo foi tomado por uma súbita desconcentração e um pavor inesquecível. Um verdadeiro bug numa terça-feira que tinha mesmo tudo para ser diferente…

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Polifonia do Sagrado

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No mês de junho, foi publicada pela Editora UFS a coletânea “Polifonia do Sagrado: Pesquisas em Ciências da Religião no Brasil”, organizada por Péricles Andrade. “Esta obra é resultado de um esforço do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Sergipe em estabelecer uma rede de cooperação entre os pesquisadores brasileiros. Buscou-se, com a sua constituição, estabelecer maiores interações institucionais entre pesquisadores que compõem os programas de Ciências da Religião no Brasil. Espera-se que esta coletânea possibilite um amplo debate sobre as tonalidades a partir dos quais o sagrado tem sido investigado pelos participantes desta área do conhecimento no Brasil. Enfim, Polifonia do Sagrado visa contribuir para a superação dos obstáculos institucionalizados que se têm verificado na constituição desta área do conhecimento no campo científico brasileiro”.

 

SUMÁRIO

Apresentação – Péricles Andrade P. 13

1. Autonomia ou identificação orgânica entre a juventude católica e a instituição Igreja? Uma comparação entre estudos sobre as juventudes católicas no Brasil e na França – Marcelo Camurça P. 15

2. Categorias de acusação e campo religioso brasileiro: notas sobre manipulações da identidade e fronteiras móveis – Emerson Sena da Silveira P. 31

3. Aspectos do Desenvolvimento da Relação entre Religião e Espaço Público no Brasil: algumas anotações – Rodrigo Portella P. 49

4. Uma ciência como referência: uma conquista para o Ensino Religioso – Sérgio Rogério Azevedo Junqueira P. 59

5. O Culto as Iami Oxorongá na Região Metropolitana do Recife – Zuleica Dantas Pereira Campos e Andréia Caselli Gomes P. 73

6. Consumo, Prosperidade e Pertencimento Religioso – Drance Elias Da Silva P. 87

7. Manifestação de Identidade Cívica e Religiosa: o Primeiro Congresso Eucarístico Diocesano de Mossoró, Rio Grande do Norte (1946) – Newton Darwin de Andrade Cabral Cícero Williams da Silva P. 105

8. Protestantismo no Brasil: primórdios da inserção do Presbiterianismo em Sergipe – Alexandre de Jesus dos Prazeres e Gilmar Araújo Gomes P. 127

9. Aceitações Religiosas do Mundo e suas Direções: o caso da Religiosidade Criptojudaica – Marcos Silva e Isis Carolina Garcia Bispo P. 139

10. Reinvenção do sagrado: as práticas votivas populares e seus desdobramentos institucionais no nordeste do Brasil – Luís Américo Bonfim P. 153

11. Territorialidade Iurdiana em Aracaju-SE – Péricles Andrade e Célio Ricardo Silva Ribeiro Filho P. 167

12. A doutrina social da igreja e o espaço público no Brasil – José Rodorval Ramalho e Camilo Antônio Santa Bárbara Júnior P. 183

 

PREFÁCIO

DOS TONS, CORES E SABORES: à guisa de prefácio.

Esta coletânea que se inicia consistente e arrojada nasceu necessária e fundante, principalmente em dois campos: na tentativa de consolidação temática, teórica e metodológica de uma ciência, ainda relativamente jovem entre nós , e no incremento de diálogos entre pesquisadores e professores da rede nacional dos programas de pós graduação em Ciência(s) da(s) Religião(ões) no Brasil.

Péricles Andrade, organizador-pesquisador-escritor, nos brindou com maestria e extrema habilidade ao conseguir reunir quatro programas de três regiões: os programas da Universidade Federal de Sergipe, da Universidade Católica de Pernambuco, da Universidade Federal de Juiz de Fora e da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.

Certamente nos volumes seguintes contaremos com contribuições advindas do Norte e Centro Oeste Brasileiros. Quando registro esta capacidade aglutinadora de Péricles, não penso nos critérios de endogenia da Capes, porque muitas vezes aquilo que é publicado apenas no Sudeste não obedece a tal conceito  e é considerado paradigma nacional. Antes me refiro à urgência de se diagnosticar produções em nossa área fazendo confluir todas as sendas, a partir de todos horizontes nacionais, sem exclusões e/ou privilégios exacerbados.

O grau de maturidade de uma ciência somente pode ser medido pela sua própria capacidade de se auto avaliar. Neste ponto, mais um brinde ao nosso organizador. Neste volume é possível pensar o que fazemos e como fazemos. O que dizemos ser Ciência(s) da(s) Religião(ões) no Brasil, especialmente quanto ao nosso comportamento epistemológico; dito de outra maneira, se ainda somos departamentais ou se realmente praticamos interdisciplinaridade, multidisciplinaridade ou transdiciplinaridade,  na direção da consolidação de uma autonomia científica como um campo científico que aglutina vários sub campos  científicos, sem se perder no ecletismo maléfico que tanto assombra e danifica as ciências no Brasil, desde os primórdios de nossa fundação e diversidade científica; estas quase sempre perdidas em transladar os avanços alheios sem ousar pensar a partir de si. Aqui me refiro muito mais às ciências humanas, porque claro que está que somos muito mais reconhecidos mundo afora pelos exemplos oriundos das tecnologias e das saúdes, dados que podem ser facilmente verificados nos indicadores nacionais e internacionais.

Mais meu que de muitos com certeza, este assombro decorre de que ainda não acordamos para a incrível constatação de que o Brasil é consideravelmente o maior laboratório empírico do mundo para se estudar religiões. Sem dúvida somos continentais e temos a vantagem magnífica do idioma que facilita descolamentos do Norte ao Sul  e contamos sempre com ajuda de traduções dos idiomas não oficiais; sem dúvida somos híbridos e, como queiram, também, sincréticos. Temos lei nacional contra discriminação religiosa e, se registramos e combatemos intolerância religiosa, também é verdade que organizamos eventos religiosos magníficos sem registros de violências físicas e simbólicas.

Se os cientistas da Religião(ões) ainda imaginam poder pensar em apenas uma religião como foco privilegiado de  suas pesquisas e de compreensão dos fenômenos religiosos , talvez devessem inventar a tão sonhada máquina do tempo e procurar no devir histórico as supostas identidades rígidas das religiões e ter muito cuidado sobre tal, porque até Dario I, conhecido como O Grande, recomendava aos seus sátrapas o respeito às diferenças religiosas.

Dario I dominou o Império Aquemênida durante o século VI a.c e suas posturas podem ser observadas nas agonias de Pôncio Pilatos ao condenar Jesus, afinal lavou as mãos em um gesto   político brilhante exigido pelo poder/ ação administrativos, que impunha  deixar de lado querelas religiosas alheias aos interesses da manutenção dos  deuses romanos.  Pois então, quem sabe resta, também, sonhar com Tutacamom em sua malograda tentativa de instaurar o monoteísmo no Egito.

O Brasil do século XIX penso que deva ser investigado em suas  multiplicidades, tolerâncias, intolerâncias e, por enquanto, saudavelmente híbrido, porque, naturalmente, hibridismos não significam ausências de tensões.

O nosso campo de pesquisa é esmagadoramente constituído por historiadores, teólogos, sociólogos, filósofos, psicólogos, profissionais da educação, antropólogos e cientistas da(s) religião(ões). Com alegria, vemos os cientistas da(s) religião(ões) proliferando cada vez mais, o que nos sinaliza que , aliado ao campo fértil de pesquisas referido anteriormente e a este saudável aumento de especialistas em religião no Brasil, o panorama que se configura entre nós indica que seremos, dentro em breve, o maior celeiro de estudos de religião, com densidade em pesquisas e ensino, no mundo ocidental. Sejamos, pois, emancipados desde sempre, das cansativas reproduções intertextuais no campo da epistemologia, abordagens metodológicas e temáticas.

Do que foi dito, eis que a sucessão dos textos desta coletânea confirma nossos anseios. Marcelo Camurça, como sempre, nos abrilhanta com um olhar amplo e respaldado em dados consistentes. Ancorado na fenomenologia e com seu viés perspicaz de  sociólogo, antropólogo e historiador, nos remete à constatação de como fez falta nos currículos nacionais  das graduações em  História a tão necessária História das Religiões e História Comparada das religiões. Não que devêssemos ou devamos filiações prementes a M. Eliade e R. Otto, mas como nos faz falta a disciplina de História das Religiões no Brasil; por um tempo esquecida pelos clássicos fundadores dos cursos de História no Brasil, de opções positivistas/idealistas, e por mais tempo, repudiadas e perseguidas pelo hegemonia marxista. Camurça é genial em suas comparações sobre filiações (ou não) da juventude francesa e brasileira à hierarquia católica. Texto lúcido para o pensamento atual, principalmente sobre como refletir acerca dos caminhos conservadores que brotam como ervas daninhas por todo Brasil.

Emerson Sena Silveira nos provoca, de maneira singular, sobre o que são identidades religiosas no Brasil, a partir do conceito de acusação. O fez gigantescamente bem porque ousou na temática e no estilo que lembra Montaigne e os ensaístas ingleses do dezenove, sem esquecer a concepção de Prost sobre o tempo. Fez sobre o prisma corajoso de amalgamar ciência e memória pessoal. O fez bem, afinal trata do que imaginamos definir identidade não como se esta fosse uma categoria esdrúxula, mas constituinte do que nos levou e nos leva a estudar religiões. Certamente abriu caminhos sobre como perceber e estudar fenômenos religiosos e os analisar e narrar a partir de si para o mundo, sem se encerrar em si, como fazem ensaístas menores.

Rodrigo Portella, ao analisar a religião e o espaço público no Brasil, parte da constatação de que religião é um fenômeno intrínseco a nossa vida social e de que as tentativas republicanas de diferenciação/delimitação sobre espaços públicos sempre estiveram sob domínio oficioso dos católicos/cristãos e esta legitimidade está assentada na caridade. Tal paradigma também legitima as religiões não católicas/cristãs. Um texto elegante com excelentes diálogos teóricos sobre o tema com especialistas brasileiros, sobretudo pelas indagações sobre a “porosidade de fronteiras” entre religião e atividades de assistência pública. Bastante lúcida as ponderações acerca do que mobiliza o fiel para atuação social; antes a fé, as crenças, o “sentir-se tocado”, do que propriamente a racionalidade política.

Sérgio Rogério Azevedo Junqueira nos elucida, como sempre, sobre o ensino religioso no Brasil. Nos embasa sobre leis, diretrizes e bases curriculares. Não existiríamos enquanto ciência sem aplicabilidade se não houvesse a formação de docentes para o ensino religioso no Brasil, seja esta entendida hoje como ensino religioso ou como educação religiosa. O capítulo de Sérgio nos orienta e pondera com muita propriedade sobre nossos caminhos políticos atuais e futuros.

Zuleica Dantas Pereira Campos pensa sempre através de horizontes múltiplos; vemos emergir uma historiadora, antropóloga e cientista das religiões, daí seu texto sai de Pernambuco e perpassa as interpretações sobre religiões africanas no Brasil para nos de dizer que não há dualidades entre nós e a África. Um capítulo primoroso, ainda mais, quando somado às ricas contribuições de Andréia Caseli Gomes.

Drance Elias da Silva investiga no Brasil as formas de pentecostalismo, também nomeadas de neopentecostais, a partir da década de 1970. O faz embasado em dados empíricos extraídos da Igreja Católica e da IURD e através de uma brilhante e densa reflexão teórica, onde o tema é tecido integrando perspectivas clássicas com as mais recentes ilações entre a Sociologia da Religião/ análise de discurso. Nosso autor aqui aponta para uma “hermenêutica” discursiva centrada no dinheiro e no consumo, ambos associados à prosperidade como condição precípua de pertencimento/identidade do fiel. Desta forma, a religião no capitalismo deixa de ser apenas compreendida como uma alienação ou falseamento da realidade para tornar o capitalismo, em si, uma religião singular.

Newton Darwin de Andrade Cabral e Cícero Williams da Silva explicam o Primeiro Congresso Eucarístico Diocesano de Mossoró que ocorreu em 1946, sob o prisma da compreensão de uma confluência entre identidade religiosa e cívica. Uma magnífica elaboração histórica construída a partir da revisão historiográfica de boa base documental. Este capítulo é fundamental aos estudos sobre congressos eucarísticos no mundo e no Brasil, porque os autores tiveram o cuidado de nos desvendar seus sentidos e naturezas. Ao identificar identidade dualista, Newton e Cícero teceram uma trama histórica muito especial e rica, porque nos narram os massacres de católicos ocorridos no Rio Grande do Norte, durante as invasões holandesas e o processo de beatificação de trinta católicos, entre mais de centena, como protomártires, em 2000.

Alexandre de Jesus dos Prazeres e Gilmar Araújo Gomes, na mesma direção do capítulo anterior, nos presenteiam com um texto de extrema importância sobre os primórdios da chegada dos presbiterianos em Sergipe. Também respaldados na Historiografia e em bons documentos, eles traçam as estratégias de inserção dos presbiterianos como parte de um conjunto de estratégias usadas no Brasil inteiro, sendo bastante salutar, especialmente para nossa compreensão cultural de como as minorias religiosas enfrentam resistências e constroem suas identidades.

Marcos Silva e Isis Carolina Garcia Bispo constroem um capítulo polêmico e instigante sobre como as religiosidades oprimidas e subalternas não podem ser reduzidas às categorias de análise das teorias clássicas. Desta premissa decorre a discussão teórica sobre o que estes autores compreendem como sendo “rejeições religiosas do mundo” em Weber, em oposição à compreensão das “aceitações religiosas do mundo em suas práticas rituais”. Para elaboração deste último paradigma, Marcos e Isis refletem historicamente sobre a religiosidade criptojudaíca incluindo suas esferas eróticas e intelectuais, não apenas absorvendo saberes historiográficos, mas também esmiuçando documentos fundamentais à compreensão das religiosidades na Península Ibérica.

Luís Américo Bonfim, para entender práticas votivas populares no Nordeste do Brasil a partir de trabalhos etnológicos bastante primorosos, cria categorias taxonômicas de tipos e perfis devocionais de cultos canônicos e não canônicos, onde percebemos um rico esforço que nos ajuda na decodificação do que ele nomeia como sendo tipos canônicos, transcanônicos, protocanônicos e não canônicos. Um capítulo denso e necessário porque não se perde em deleites teóricos; ao contrário, nos indica caminhos de como podemos aglutinar aquilo que pode ser comum em nossas religiosidades como trocas e barganhas materiais e simbólicas.

Péricles Andrade e Célio Ricardo Silva Ribeiro Filho analisam questões vinculadas à territorialidade Iurdiana em Aracaju e criam cenários deslumbrantes, a partir da intersecção de dados dos censos nacionais e locais. Conseguem esboçar conclusões densas extraídas das variáveis de renda e escolaridade. O que salta aos olhos é que estes autores conseguem nos elucidar sobre “ética religiosa diferenciada” e, com muita propriedade e segurança, compreendem as estratégias de inclusão da IURD; aqui existem significativas ponderações distintas do pensamento dominante no Brasil sobre este tema, porque territorialidade é percebida, também, como transitoriedade e mobilidade.

Para a compreensão no Brasil atual do que ordinariamente se designa como Doutrina Social da Igreja, o capítulo que encerra a coletânea com muito primor, de José Rodorval Ramalho e Camilo Antônio Santa Bárbara Júnior, é mais que oportuno. Partindo de uma investigação histórica conceitual sobre solidariedade, bem comum e subsidiariedade presentes nos discursos da Igreja desde os primórdios da Doutrina Social, Rodorval e Camilo denunciam o distanciamento/ausência destes fundamentos no atrelamento da Igreja Católica no Brasil ao Governo Federal da atualidade brasileira. Impactantes e necessários, os resultados que nos conduzem a duras considerações políticas sobre o papel da religião nos desmantelos do uso das engrenagens públicas para manipulação social dos menos favorecidos.

Péricles Andrade está de parabéns, todos nossos autores estão de parabéns!!! Registro minha alegria e honra pela confiança depositada. Péricles dissertou sobre tons, assim registro que esta coletânea tem muitas cores e muitas sabores. Sua leitura atenciosa descortina horizontes nos presenteando com as infindáveis luzes de um arco íris e nos faz saborear as muito boas narrativas.

Professora Dra. Sylvana Maria Brandão de Aguiar

 

DADOS

Editora: Editora UFS. São Cristóvão-SE

Número do código de barras: 9788578225049

ISBN: 978-85-7822-504-9

Acabamento: Brochura

Altura: 23,2cm

Largura: 15,2cm

Profundidade: 1,4cm

Número da edição: 1

Ano da edição: 2015

Idioma: Português

País de origem: Brasil

Número de páginas: 196

Peso: 0,40kg

Organizador: ANDRADE, Péricles

 

VENDAS

Loja da Editora UFS (Biblioteca Central da Universidade Federal de Sergipe) ou por reembolso postal. Valor: R$ 30,00 (trinta reais) + frete. Pedidos pelo email: observare@ufs.br.

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Redenções, expurgações e outros casos de reparações coletivas post-mortem nas canonizações populares da América do Sul

Confira o artigo de minha autoria, publicado pela Raízes – Revista de Ciências Sociais e Econômicas (UFCG): BONFIM, LAS.

Capa RaízesOu em: http://www.ufcg.edu.br/~raizes/artigos/Artigo_347.pdf

Resumo: Este artigo analisa alguns casos de devoções não-canônicas no Brasil, Argentina, Chile e Venezuela, com o objetivo de compreender os diversos mecanismos de reparação post-mortem, requisitos para a consagração dos santos populares. Apresenta-se aqui um segmento dos resultados de uma pesquisa etnográfica que originalmente abordou as práticas devocionais e votivas na América do Sul e localizou, entre outras taxonomias, um vigoroso complexo de motivações sociais fundadas na comoção coletiva ante uma morte que, em dada medida, viole ou acentue os vínculos de coesão social. Como resultado, foi possível estabelecer um quadro de referência dinâmico que, ao modo esquemático do “martirológio romano”, situa as motivações devocionais em dois grandes grupos: o de exaltação de virtudes e o da reparação de martírios, lato sensu. Concluiu-se que a matriz religiosa católica, de decisivo impacto na formação da moral sulamericana, imprimiu um modelo de produção de crenças e práticas livremente interpretado pelas populações, e que se renova de acordo com as demandas de cada tempo e espaço.

Foto: Luís Américo Bonfim

Túmulo de João Baracho, Cemitério Bom Pastor, Natal-RN. Jan/2010.

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Observare: Observatório Multidisciplinar de Religiões e Religiosidades

Observare_texto e marcaNeste mês de julho assumi a coordenação de um projeto dentro do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Universidade Federal de Sergipe (PPGCIR/UFS), em parceria com o teólogo e pesquisador Joe Marçal Santos. Trata-se de um Grupo de Pesquisa que dará continuidade ao anterior Observatório Sergipano de Religiões e Religiosidades (OBSERVARE), um centro de investigações sobre o campo religioso, em especial nas conexões entre o estado de Sergipe e a América Latina. A iniciativa busca institucionalizar pesquisas multidisciplinares e disponibilizar bases de dados não só ao público especializado. Outras definições virão nas próximas semanas.

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Ex-votos são tema de pesquisas na UFS

destaque-pibic-informeNeste mês de agosto de 2014, duas pesquisas com tema central nas produções votivas tiveram início na Universidade Federal de Sergipe (UFS), dentro do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC/COPES/UFS): “Impactos da tecnologia nas culturas tradicionais: O caso dos ex-votos na devoção ao Senhor dos Passos, São Cristóvão-SE” (bolsistas Marisérgia Pereira Silva e João Santana Marques) e “Design e interpretação do patrimônio cultural para o Centro Histórico de São Cristóvão-SE” (bolsistas Max Luiz Lisboa Matias e Luciana Barreto Dinelli), ambas sob a minha orientação. As atividades, que também têm um caráter extensionista, serão desenvolvidas no âmbito do Grupo de Pesquisa/CNPq Design e Cultura e vinculadas ao Departamento de Artes Visuais e Design (DAVD). Os dois estudos terão como referência o acervo de peças votivas da devoção ao Senhor dos Passos, abrigado no Museu dos Ex-votos de Sergipe/Igreja do Carmo Menor, São Cristóvão-SE.

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Nova aba: “Martirológio não-canônico”

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A seção Martirológio não-canônico passa a compor este blog. Reflete um ajuste sobre o alcance que estes estudos alcançaram nos últimos anos, e passa a contemplar um campo de interesse crescente – as entidades realizadoras dos milagres.

Este Martirológio é um guia das santidades consagradas pela devoção popular na América do Sul, independente do reconhecimento ou aceitação da Igreja Católica. Trata-se de um catálogo litúrgico leigo, sem os rigores teológicos, que constitui um calendário e assim determina as datas de celebrações das memórias dos mártires e virtuosos do clamor popular – o primeiro passo para a constituição de uma hagiografia dos santos irregulares, objetivo acadêmico maior. Além das fontes bibliográficas e documentais, são de fundamental importância os trabalhos etnográficos em campo e a consulta a informações disponíveis na rede mundial de computadores (internet).

Como no Martirológio Romano, este guia anuncia as personalidades segundo a ordem dos meses do ano, adicionando o local e a data de morte e, quando disponível, a data de nascimento. Além destes dados de indexação, seguem-se algumas considerações sobre as circunstâncias de vida e morte de cada santidade e a repercussão da sua força mística, que se expressa pela construção e manutenção dos ritos e espaços sagrados de culto, pela evocação dos seus dons miraculosos e pelas intensas práticas votivas que ensejam.

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I Seminário LETRA, UFCG

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Entre os dias 03 e 05 de junho de 2014, a cidade de Campina Grande-PB foi palco do I Seminário do Laboratório de Estudos Sobre Tradições (LETRA), grupo de pesquisa fundado na Unidade Acadêmica de Ciências Sociais (UACS) da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Na oportunidade, compus a Mesa Redonda 5, “Percursos de Devoção e Atividade Ritual em Perspectiva: reflexões a partir de alguns contextos latino-americanos”, junto com Sérgio Góes Telles Brissac (MPF/CE) e Eloi dos Santos Magalhães (UFC). Apresentei a comunicação intitulada “Redenções, expurgações e outros casos de reparações coletivas pos-mortem nas canonizações populares da América do Sul”, que será posteriormente publicada na Raízes – Revista de Ciências Sociais e Econômicas, do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal de Campina Grande. O evento teve a liderança dos antropólogos Rodrigo de Azeredo Grunewald e Verena Sevá Nogueira, e contou com o apoio da CAPES, CNPq e Associação Brasileira de Antropologia (ABA).

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Senhor do Bonfim da Bahia: celebrações e práticas votivas

Montagem de fotos de Luís Américo Bonfim

Muitos textos… Tantas palavras. 1o Ano Ensino Médio/SESI-SP. 1. ed. São Paulo-SP: SESI, 2012.

Depois de muita espera, recebi um exemplar da publicação do SESI-SP/Módulo Editora (PR), Muitos textos… Tantas palavras, na qual contribuo com um dos capítulos. Trata-se de uma reflexão sobre a Lavagem do Bonfim pós-Dom Lucas Moreira Neves, quando, há aproximadamente quinze anos, os espaços entre o sagrado e o profano, o espontâneo e o institucional, também eram motivo de entreveros nas festas de largo da capital baiana. Foi uma das minhas primeiras experiências etnográficas, agora disponível para o debate de jovens do 1o Ano do Ensino Médio. Infelizmente, o texto publicado no livro não considerou a revisão (alterações e atualizações) que enviei à editora com longa antecedência. Os editores descobriram um texto meu escrito em 2000, fossilizado na internet, que seria ajustado para compor a publicação que eles organizavam. Lamento por outras derrapadas gráficas, agora irreversíveis, mas ainda assim gostei da menção.

Link para download do texto enviado à Editora, em PDF: http://pt.scribd.com/…/BONFIM-LAS-Lavagem-Do-Bonfim…

E aproveitando o ensejo, seguem algumas considerações sobre as práticas votivas dedicadas ao Senhor Bom Jesus do Bonfim, num recorte de trechos da minha tese.

Os ex-votos do Senhor do Bonfim

O termo “bom fim” define um rito de passagem: a boa morte, o “bem morrer”. No Brasil de antanho, a partida ideal para o mundo dos mortos, especialmente entre os mais abastados, deveria contemplar o passante não apenas dos indispensáveis sacramentos cristãos (comunhão, penitência e extrema-unção), mas de uma assistência solidária de todos os seus entes mais próximos. O historiador João José Reis, no seu livro A morte é uma festa, acrescenta que “a boa morte significava que o fim não chegaria de surpresa para o indivíduo, sem que ele prestasse conta aos que ficavam e também os instruísse sobre como dispor de seu cadáver, de sua alma e de seus bens terrenos”. O “bom fim” era garantia de distância do inferno. E com fé no Nosso Senhor do Bonfim, foi trazida de Portugal para a Bahia, em 1745, uma imagem-reprodução do Cristo Crucificado diretamente da Igreja de Setúbal, pelas mãos do Capitão-de-Mar-e-Guerra Teodósio Rodrigues de Faria, como pagamento de uma promessa pactuada numa de suas dramáticas travessias do Oceano Atlântico. O culto iniciou-se na Igreja da Penha, sendo nove anos depois conduzido para a igreja do alto da colina de Itapagipe (também construída como uma oferta votiva), onde se encontra até hoje.

Para o historiador e crítico de arte Clarival do Prado Valladares, em seu livro Riscadores de milagres: um estudo sobre arte genuína, a característica mais relevante para a evocação ao Senhor do Bonfim “é a de socorrer nas angústias da morte próxima, nos perigos e na beirada das grandes frustrações”, sendo chamado de “nosso Pai”, “o Poderoso”, “o meu Senhor”, “o meu bom Senhor”. Nesta obra, um dos mais interessantes estudos brasileiros dedicados ao assunto,  Valladares apresenta o esboço de um inventário das “salas dos milagres” da Igreja do Bonfim, analisando, com muita objetividade e critério, quase 150 peças votivas de diversas tipologias, fruto de duas incursões ao lugar, a primeira entre 1939-40 e a outra entre 1960-61. Apesar deste considerável intervalo entre as duas visitas, Valladares não revela conclusões sobre algum tipo de ação do tempo sobre as peças e expressões votivas observadas, nem se aprofunda em direção a uma análise das relações religiosas. Seu enfoque é estritamente voltado para a crítica de arte e interessado na “manifestação estética do artista primitivo” (…) “aquele que produz ou constrói, objetos de qualidade ou de causalidade artística para o consumo implícito ao seu meio sócio-cultural”. E segue, “primitivo significa, neste ensaio, o artista genuíno desprovido da habilitação e do discernimento, exigidos pela civilização, no reparo dos objetos destinados ao consumo e ao deleite dos estratos sociais elevados”. Talvez hoje em dia se possa considerar estas definições um tanto quanto etnocêntricas, mas são capazes, ao menos, de determinar sistemas de valores sociais que ainda não foram superados completamente na atualidade. Por isso elas ainda guardam algum sentido didático.

Valladares é cauteloso ao tomar distância das avaliações de ordem religiosa (intentando libertar os ex-votos de “outras atribuições”), e deixa claro que sua seleção levou em conta as peças que mais o “impressionaram, por uma qualidade artística ou por alguma razão de ordem científica”. A obra concede uma inédita visibilidade aos ex-votos do Senhor do Bonfim e apresenta generosas fontes históricas sobre as práticas votivas no mundo ocidental, além de um breve estudo acerca da “arte cemiterial popular” da capital baiana.

Sem uma preocupação mais sistemática do ponto de vista taxonômico, Valladares criou inicialmente um sistema classificatório regido pelo tipo de material utilizado:

  1. Ex-votos em cêra, madeira e ourivesaria (destaca que os ex-votos de cera representam basicamente partes do corpo e quanto aos de madeira, “por cujo valor escultórico ganham cobiça, poucos restam”);
  1. Ex-votos de objetos e pertences ao próprio fato de o milagre (radiografias, fotografias, objetos como uma agulha de costura, restos de embarcações);
  1. Ex-votos em desenho e pintura (de suportes e técnicas diversas, nos quais ressalta a intenção narrativa);

Cada uma destas categorias é ilustrada por relatos verbais correspondentes a cada expressão típica, sobre os quais o autor procede a uma análise discursiva, em alguns casos amparado pela reprodução fotográfica da peça em consideração. Valladares considera que, “num certo sentido, poderia denominar muitos dêsses ex-votos simplesmente de correspondência com o Senhor do Bonfim”, ressaltando a “existência humana que se dá ao Senhor do Bonfim, no modo como é tratado nas dedicatórias, cartas e rogos”.

De um modo geral, as 148 peças analisadas por Valladares estabelecem uma relação entre suas expressões verbais e não verbais, com um foco bastante dirigido para a crítica das motivações sociais (contexto sociocultural da peça, do autor da peça e do ofertante/milagrado), considerando as condições de produção, distribuição e consumo. É certo que sua contribuição nos serviu de inspiração e fonte de referência, apesar das incoerências do esboço taxonômico. Valladares não chegou a centrar suas forças no desenvolvimento de uma epistemologia dedicada ao ex-voto, objeto em estudo. Mesmo assim foi capaz de produzir o conjunto de conclusões mais completo que tive a oportunidade de conhecer, entre todas as outras tentativas que já conheci.

O sistema classificatório que ele adotou preliminarmente mescla a função crônica da oferta (presentes e ex-votos propriamente ditos, por exemplo), as formas expressivas da oferta votiva (bases tipológicas) e suas propriedades de expressão sígnica (valor icônico, indicial ou simbólico). Procurei estabelecer e aprimorar essas distinções nos estudos que desenvolvi no campo da taxonomia da oferta votiva.

Quanto ao panorama de diversidades que apresentou no livro, posso afirmar que quase 75 anos depois esta é uma característica que só se reforça. O Museu dos Ex-votos ainda ostenta uma reserva técnica sem similar em toda a região Nordeste. A relativamente pequena “sala dos milagres”, na nave direita da igreja, encanta por alinhar testemunhos recentes com outros muito antigos, por não estabelecer distinções valorativas entre o que é exclusivamente católico e o que é de motivação sincrética e por ser um espaço público e extremamente acessível às oblações votivas.

A fé no Senhor do Bonfim torna sua “sala dos milagres” muito mais extensa do que a limitada no interior da igreja. De dia ou de noite, a Colina Sagrada é sempre um espaço de expressão de pedidos e agradecimentos, riquíssimo palco de performances pessoais, lugar que dilui definitivamente o rigor e a tangibilidade do que se pensa como sagrado. A fé no Senhor do Bonfim é um autêntico signo do patrimônio cultural baiano, acima de qualquer outra forma de classificação normativa.

A presença votiva do Senhor do Bonfim é uma das mais antigas do Brasil (a devoção já tem mais de duzentos e cinquenta anos), mas impressiona o seu vigor contemporâneo. Pelo valor artístico ou pelo valor religioso, as práticas votivas dedicadas ao Senhor Bom Jesus do Bonfim são essencialmente distintas da maioria do que se pode encontrar pelo nordeste do Brasil. A começar pelo caráter transcanônico da devoção: Senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá – segundo afirma Pierre Verger na sua obra Orixás – deuses iorubas na África e no Novo Mundo, “sem outra razão aparente senão a de ter ele, nesta cidade, um enorme prestígio e inspirar fervorosa devoção aos habitantes de todas as categorias sociais”, e afirma, ainda, que a Lavagem é uma aproximação com outra festa de origem africana: as “Águas de Oxalá”. Por essas razões,  as matrizes religiosas católica e afro-brasileira (especialmente o Candomblé) criam uma simbiose de harmonia poucas vezes verificada em qualquer outro lugar do país. A Lavagem do Bonfim é uma prova viva dessa manifestação de hibridação cultural, o Museu de Ex-votos e a tradicional e renovada “sala dos milagres” são outras.

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Sinful Saints and Saintly Sinners at the Margins of the Americas

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O catálogo dessa bela exposição, promovida pelo Fowler Museum, da UCLA (University of California, Los Angeles, 30/03/2014 a 20/07/2014), incluirá um texto meu e mais algumas fotografias, sob a temática do santoral profano sul-americano, meu assunto predileto nesses últimos anos. “Folk Saints in South America” foi traduzido para o inglês por Sabrina Gledhill, a quem agradeço todo o apoio e paciência. A curadoria da exposição é de Patrick A. Polk. ISBN 978-0-9847550-7-3. O catálogo foi publicado pela University of Washington Press.

O texto aborda os casos do Gauchito Gil e da Difunta Correa (Argentina), de Emilio Dubois (Chile), de João Rodrigues Baracho (Brasil) e da Corte Calé/Malandra do culto marialioncero (Venezuela), discutindo a gênese social das venerações e devoções não-canônicas.

NEWS RELEASE PDF:

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