As trilhas do campo: novos rumos para uma tese de doutorado

Ex-votos da Igreja do Senhor do Bonfim de Taperaguá, Marechal Deodoro-AL, 10/08/2008

Ex-votos da Igreja do Senhor do Bonfim de Taperaguá, Marechal Deodoro-AL

No ano de 2007 defendi, no Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (PPGCS-UFBA), a tese de doutorado intitulada “O signo votivo católico no nordeste oriental do Brasil: mapeamento e atualidade”, sob a orientação do professor Ordep José Trindade Serra. Este estudo, que teve como proposta inicial uma análise sobre as representações dos atos de trocas votivas, tomou rumos muito particulares ao longo da sua execução. O trabalho de campo, compreendido efetivamente entre 2001 e 2010, foi elaborado a partir de referências bibliográficas e documentais, produtos de autores como Luís Saia, Clarival do Prado Valladares, Luís da Câmara Cascudo, Théo Brandão, Alceu Maynard Araújo, Lélia Coelho Frota e Marcílio Lins Reinaux, entre outros. De início, a qualidade do conjunto das informações preliminares acerca do assunto mostrou-se frágil e parcial. Os dados obtidos (classificações, taxonomias, sistemas relacionais), se eram muitas vezes contraditórios ou pouco coerentes na confrontação de suas fontes, mostravam-se ainda menos operacionais quando verificados fenomenicamente: as primeiras incursões ao campo mostraram que a maioria daqueles dados iniciais era por demais econômica na caracterização do percurso metodológico então adotado. Não se tratava, na maioria das vezes, de trabalhos etnográficos propriamente ditos, mas de observações e coletas mais ou menos livres, informalmente seguidas de uma tentativa de organização tipológica do material. Muitas informações eram pulverizadas ou mostraram-se desencontradas e imprecisas na caracterização do tempo e do espaço.

Era, portanto, imperativa a tarefa de organizar uma base de dados atualizada e confiável, o que acabou se tornando o propósito final da tese, que teve como resultado a produção de uma base de referências sobre as práticas devocionais na porção oriental do Nordeste do Brasil (estados da Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará).

Procurei analisar as fontes com o cuidado de reelaborar seus indicativos, dentro da perspectiva de uma etnografia histórica. A tarefa se iniciou com a abertura de uma base de dados sobre os ex-votos do Nordeste, relacionando cidades, devoções e formas de devoção, artefatos produzidos e o modelo metodológico daqueles pesquisadores, além de suas estratégias de abordagem. Na busca da atualização destas informações lancei mão do recurso da internet, que permitiu uma satisfatória análise exploratória de notícias de confirmação das localidades e permanências dos cultos, a partir do que pude fazer um traçado dos pontos de observação e suas rotas de acesso. Sempre por meio automobilístico, realizei observação direta nos sítios votivos com registro em caderno de campo, coleta de depoimentos em áudio, preenchimento das Fichas de Inventário de Sítio (FIS), registro fotográfico e georreferenciamento dos sítios votivos (por GPS).

Além da produção dos modelos de referência (taxonomias), o trabalho de campo revelou um repartimento do território religioso em âmbitos que vão desde a invocação das santidades aos relacionamentos entre os diversos agentes envolvidos nesta trama social, numa rede de influências recíprocas (com regulamentações e desregulamentações) entre as práticas votivas derivadas do catolicismo (expressões da religiosidade popular) e a presença marcante da instituição eclesiástica oficial (a Igreja Católica). O ex-voto foi percebido como um objeto (con)sagrado, cuja hierofania nasce de estados e espaços liminares, não necessariamente no sagrado eclesiástico. Na construção deste “Campo Religioso”, as práticas votivas populares se mostram fortalecedoras do agente especializado da fé (a Igreja Católica) ao legitimar e renovar seus institutos de interdependência, com apropriações mútuas e uma trama criativa de hibridações. Creio que garante-se, dessa forma, uma continuidade do culto, independente do ambiente litúrgico este onde ocorra. As formas de elaboração se modificam, mas os discursos sobre a fé e as relações de alteridade com o ser divino (santos e santidades) se mantêm. Em conclusão, aponto que os jogos votivos são os responsáveis pela harmonização neste processo de hibridações: é a fundação do instituto da troca quem reforça a instituição religiosa da Igreja, aconteçam essas trocas dentro ou fora dela.

Desde o ano de 2004 tenho realizado com frequência expedições em torno das relações votivas, a maioria das vezes em solitário, sempre ampliando o campo de observação e submetendo os métodos e os resultados obtidos a uma constante avaliação.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s