Dádivas na Estrada: quando não encontrar é uma grande descoberta

Estrada de acesso a Patos-PB, 04/08/2008

26 de julho de 2006. Na primeira manhã do sol depois de quatro dias seguidos de chuva, saí de Maceió bastante disposto e otimista. Depois de uma passagem rápida pela cidade de Paripueira, ainda no litoral alagoano, enfrentei uma curta e deserta estrada esburacada, cujos restos de asfalto serviam como bordas para as poças de água que ainda resistiam ao dia ensolarado.

Aquele seria o dia de Théo Brandão, médico e folclorista alagoano que se interessou, nas décadas de 1960 e 70, pelo registro dos ex-votos no estado. Meio por acaso, encontrei em junho de 2004 um catálogo de exposição perdido dentro de uma revista nas prateleiras da Biblioteca Central da Universidade Federal de Pernambuco. Fui ao Recife naquela oportunidade para participar da Reunião Brasileira de Antropologia e, num dia “livre”, aproveitei para garimpar novidades entre a Universidade, a Fundação Joaquim Nabuco e a Casa-Museu Madalena e Gilberto Freyre. E lá estava, entre outras preciosidades, um catálogo simples, que como outras fontes, foi fotocopiado e se tornou um documento singular.

Cheguei ao município de Flexeiras perto das 11h. Ainda na entrada da pequena cidade tentei me orientar e descobrir a melhor maneira de fazer uma pergunta aparente simples, mas carregada de incertezas: “Onde fica o Engenho Prazeres?”. Nas semanas anteriores não foram poucas as horas ocupadas em pesquisa exploratória, sobretudo pela internet – sempre em vão – buscando pistas sobre o “Engenho Prazeres”, a “Usina Bititinga” e sua enigmática “Santa Cruz”. Já ficava evidente que o tal engenho e a usina já não existiam há bastante tempo, ao menos com esses nomes. Tinha em mente usar uma estratégia que vinha funcionando bem nos dias anteriores, especialmente quando eram visitas a locais de referência menos notória: buscar informações com pessoas mais velhas. O problema dos topônimos antigos e o peso da tradição que os mais velhos conhecem sustentavam o critério, e vinha surtindo bom efeito. Acabei abordando um grupo de idosos, que estavam à espera de transporte, ainda nos portais da cidade. Nenhum deles confirmou a existência dos lugares que eu estava à procura, alguns desconheciam, outros afirmaram categoricamente sua extinção. Também não indicaram qualquer sítio votivo ou apelo devocional contemporâneo pelas redondezas. Dei uma volta pelo lugar, buscando mais e melhores detalhes. Foi então que encontrei José Gonçalves da Silva, 68 anos. Ex-colhedor de cana, o velho afirmou que o Engenho e a Usina foram desfeitos, mas que ele já trabalhara lá, há muitos anos. E confirmou a existência de práticas devocionais fervorosas em outrora. Fiquei satisfeito por ter encontrado alguém com quem conversar sobre a atualidade daquelas duas referências votivas, aparentemente fantasmagóricas. Mais contente ainda por saber que seo José estava à espera de um transporte com destino a Murici, cidade onde ele morava e na direção da qual eu me dirigia. E fomos em frente, numa visível sessão de nostalgia para ele, e de grata revelação, para mim. Seo José, que já trabalhara até no Recôncavo Baiano, apontou a Usina Bititinga como uma grande e próspera empresa, com muitos engenhos, inclusive o “Engenho Prazeres”, se espalhando por vários municípios da zona da mata alagoana. Isso explicava a minha dificuldade em localizar na atualidade os sítios referidos por Théo Brandão: em se tratando de uma grande propriedade privada, com vida social própria (como tradicionalmente eram os engenhos nordestinos) e dispersa em diversas unidades comunitárias, a Usina Bititinga se esparramava no que hoje são pelo menos três municípios, que nos últimos anos sofreram alterações em seus limites, tendo sido possível encontrar, por exemplo, em menções superficiais, a localização da Usina atribuída a Messias, Murici e Flexeiras, em diferentes fontes.

O velho dizia que por questões trabalhistas, em meados da década de 1980, a Usina entrou num processo de falência, como muitas outras da região. Foi se esvaziando com o tempo, deixando o negócio açucareiro de ser do interesse da família e acabou como um lugar abandonado, testemunha viva das mudanças que as estruturas e relações de trabalho poderiam acarretar aos remanescentes dos tradicionais “senhores de engenho”. Seo José ainda enfatizava o desinteresse dos herdeiros pelo negócio, quando da morte do patriarca, pontuando como a “juventude” é capaz de se apegar ao que é ruim, à bebida, à farra, em prejuízo dos bens de família. Não sem revolta, o homem que afirmou não saber ler e escrever, foi sumário ao dividir os homens e as condutas: para ele, só o que se tem hoje em dia naquela região é “sem-terra, resto de usina e bois. Não existe mais respeito e nem religião!”.

Foi, de fato, impressionante a quantidade de assentamentos do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST) que vimos às margens da rodovia que trafegávamos (BR 104), ainda que aquele fosse um percurso de menos de 50 quilômetros. Mas foi o que pude constatar por toda face oriental da região Nordeste, principalmente no estado de Alagoas. Seo José não deixou de classificar também a natureza do comportamento dos “sem-terra”, entre aqueles que desbravam o terreno e buscam transformar produtivamente a terra e os que se alojam à beira das estradas, segundo ele, pouco dispostos ao trabalho e muito afeitos às farras e às contravenções, eventualmente até fechando estradas e controlando a passagem mediante extorsão. Igual descontentamento apresentara ao falar das igrejas evangélicas que se multiplicam naquela área (como pelo mundo afora). O empolgado senhor atribuiu também aos evangélicos o enfraquecimento dos cultos católicos na região, uma hipótese que, tenho visto, não é satisfatoriamente comprovada. Com toda lucidez, se mostrou humildemente temente a Deus, mas não temente aos homens. Lamentava, indignado, a forma como os valores mudavam, a esperteza dos que se utilizam da fraqueza do semelhante para conseguir facilidades, para construir impérios. Falou da “bebida”, mas fez questão de deixar claro que a culpa não é do álcool, mas de quem o consome. Parecia muito nítida na sua cabeça a certeza de que aquela era uma região imoral e sem esperança.

Quase trinta minutos de viagem e Seo José ia me guiando pela região, expondo suas recordações por cada trecho que passávamos, pontuando o que havia em outrora e como hoje pareciam lugares esquecidos no tempo. Logo chegamos à cidade de Murici, seu destino. Sem ter outro meio de demonstrar a minha satisfação pela proveitosa conversa, lhe agradeci ofertando um almoço. E eu acabara de ganhar uma dádiva! Não apenas pela experiência da presença agradável e solícita do homem simples que acabara de desembarcar, mas por ter ouvido, em tão pouco tempo, na melhor síntese sociológica sobre aquele lugar, tantas histórias que confirmavam algumas impressões que eu já recolhera, ou que negavam outras mais. Lembrei do que ouvi, quase três anos antes, do zelador da igreja de Nossa Senhora da Conceição, em Itabaiana, Paraíba: que ali “os evangélicos não deixam a santa em paz”… Lembrei de tudo que se dizia sobre as dificuldades de renovação de certas práticas católicas pelo Brasil. Lembrei que o campo estava vivo, e que ainda havia muito que observar. Segui em direção ao estado de Pernambuco, apreciando a mudança das paisagens e o gradativo sumiço dos canaviais, rumo à cidade de São João, ao encontro do Santuário de Santa Quitéria das Freixeiras. Entre Flexeiras e Freixeiras, concluí que, às vezes, não encontrar é uma grande descoberta!

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2 comentários sobre “Dádivas na Estrada: quando não encontrar é uma grande descoberta

  1. olha só que alegria encontrar tanta experiência aqui!

    Humm, como eu queria uma experiência assim..acho que primeiro tenho que tirar minha habilitação. Bom, o fato é que sinceramente aprecio a sabedoria popular. Pessoas que residem nas cidades mais “adentro” do continente, tendem a me encantar.

    Seus sotaques, simplicidade, franqueza e essa disponibilidade toda que esse sro José teve e lhe dedicou.

    muito bom Américo ^^
    estou esperando novos “capítulos” aqui ^^

    :*

  2. Adorei sua experiência….
    è bom lembrar de tudo o que vivemos e ver o quanto aprendemos….

    Parabéns Prof. Vc é talentoso!!!!

    Abração

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