31/12/2010 – A História de Gilda

Amanheci o último dia do ano de 2010 em território argentino! Isso já seria motivo suficiente para comemorar. Movido por rara animação, desci para o café da manhã, o desayuno continental, sem muitas opções no menu, mas bem saboroso:  café (de verdade!) e medialunas (croissants) doces e salgadas, mais torradas e uma geléia que nem provei.

Depois do café dei mais uma volta na cidade de Paso de Los Libres, sempre simpática e ventilada. Fui até a Aduana para, em definitivo, regularizar a minha documentação para a entrada no país: carimbo no passaporte, registro e legalização do veículo e apresentação da Carta Verde, um seguro obrigatório para automóveis estrangeiros poderem circular em território argentino. Tudo muito rápido e sem complicação. Troquei alguns Reais por Pesos e abasteci o tanque do carro com um tal Ultra Diesel XXI, quase 20% mais barato que o litro de óleo diesel no Brasil – e com 20% a menos de rendimento também, conforme descobriria a seguir. Ainda sob a luz da manhã, segui pela Ruta Nacional 14, rumo a Buenos Aires. Após quase cinco horas dirigindo numa estrada plana e com poucas variações na paisagem, fui finalmente surpreendido pelo primeiro sítio votivo a ser observado na expedição, aguardado com ansiedade desde a saída de Salvador.

Santuário de Gilda, Ruta Nacional 12

Gilda nasceu para brilhar. 11 de outubro de 1961, bairro de Villa Devoto, oeste da Capital Federal. Encantados com a beleza da atriz norte-americana Rita Hayworth, o casal Omar Bianchi e Isabel Scioli (Tita) sonhara batizar sua pequena criança com o nome da célebre personagem do cinema na década de 1940. Ficou apenas no desejo, pois o cartório negou-se a aceitar a homenagem. Daí surgiu Miriam Alejandra Bianchi. Talentosa e inquieta, foi educada dentro de um mundo cercado de música. Já crescida e com idas e vindas na instável carreira musical, a bela Miriam assumiu o nome artístico de Gilda, e em pouco tempo sua música, em ritmo de cumbia pop, passou a ser sucesso por toda a Argentina, atingindo até outros países próximos. A repentina rotina de shows e a aparição na mídia tornavam a cantora e compositora cada dia mais popular. A evidência e o reconhecimento público da sua arte ganhavam um espaço especial sobretudo no coração dos argentinos.

O quilômetro 129 da Ruta Nacional 12 acabou sendo o palco do seu mais trágico momento. A caminho de Chajarí, destino de mais um show, fim de uma tarde chuvosa do dia 07 de setembro de 1996, o micro-ônibus onde iam Gilda, seus familiares e banda, chocou-se de frente com um caminhão dirigido por um brasileiro, que fazia uma perigosa ultrapassagem. Saldo: sete mortos e o fim da carreira de uma estrela em ascensão. No desastre, além da “cantante bailantera”, morreram sua mãe (Tita, que inicialmente contrariada com a carreira artística de Gilda, passou a acompanhá-la no início do sucesso), sua filha Mariel e músicos da banda.

Não demorou para que Gilda fosse alçada à condição de divindade. A cem metros do lugar do acidente, repousam os restos do micro-ônibus que a transportava, logo transformado em santuário. No imaginário popular, a macabra série de coincidências concede um relevo fantástico à narrativa da estrela: SETE de SETEmbro de 1996 (ano cuja somatória é SETE), SETE da noite, SETE pessoas mortas, entre elas, uma criança de SETE anos. Entre as bagagens de Gilda, uma fita k-7 com composições para um novo disco.

Santuário de Gilda, Entre Ríos, Argentina, 31/12/2010

Os destroços do micro-ônibus que transportava Gilda e sua banda, transformado em santuário

Na ocasião do acidente, em 1996, a Ruta 12 era uma estreita pista de mão dupla, que apesar de assentada num terreno plano e com curvas pouco acentuadas, sempre foi trafegada por veículos pesados. Hoje é uma autopista de alta velocidade, pedagiada e muito bem cuidada, mas que ainda guarda grande perigo pelas aparentes condições de segurança que proporciona, um risco para os motoristas mais impetuosos.

Num terreno estreito localizado entre a autopista e o leito do rio Paranacito, além dos destroços do micro-ônibus, encontrei uma pequena construção que abrigava uma “sala dos milagres” e um altar dedicado à cantora. O santuário que se vê hoje foi iniciado por Carlos Maza, um devoto que, em retribuição a uma graça concedida por Gilda, tomou a iniciativa de organizar aquele espaço religioso. Por sorte o encontrei por lá no dia 31, junto com o cuidador José Simonini, zelosos e muito receptivos para uma boa conversa.

Espalhadas pelo santuário, são múltiplas e distintas as homenagens, pedidos e agradecimentos das intervenções miraculosas de Gilda. Encontram-se bilhetes e faixas manuscritas, fotografias, buquês de flores, brinquedos infantis de vários tipos e tamanhos, roupas, terços e rosários, peças de roupa e incontáveis placas policiais de automóveis. Impressionaram a dramaticidade dos relatos escritos e o grande volume e variedade de oferendas gratulatórias, reflexos da dimensão mística agregada a Gilda. Depois de ter conhecido tantos santuários, capelinhas, cemitérios e monumentos votivos, aquele lugar me pareceu especialmente vigoroso em muitos aspectos. A certa altura da minha observação, enquanto preenchia uma das fichas de inventário, tive a impressão de que surgiriam ali representações votivas de todos os tipos possíveis, algo pouco frequente, mas que exprime a amplitude da criatividade e o poder imaginativo da relação entre crente e divindade, abarcando toda a sorte de vicissitudes e desejos, e suas formas expressivas. E quase tudo aquilo castigado permanentemente pelas intempéries naturais, que podem, eventualmente, incluir até geadas e raras nevascas, como no ano de 2007.

Além disso, aquele testemunho em carne viva, ali, no exato local do desastre, é uma evocação permanente à dor pela fugacidade da vida. Sensação bem diferente da experimentada quando próximo aos “cruzeiros de acontecido”, outro tipo de monumento votivo abundante nas estradas e caminhos vicinais em toda a América do Sul. Os cruzeiros são erigidos como uma memória sutil, silenciosa. Mas o impacto de ferros retorcidos parece produzir ecos incessantes no tempo e no espaço, escandalosamente vivos, e bem aos olhos de qualquer passante desavisado.

Santuário de Gilda, Entre Ríos, Argentina, 31/12/2010

Detalhe de pintura em homenagem a Gilda

Hoje a música de Gilda não é tão difundida na Argentina. Carlos Maza me afirmou enfaticamente que a evidência da cantora como alma milagrosa – Santa Gilda – se tornou mais marcante do que sua referência como artista. Ainda assim, sites na internet disponibilizam alguns de seus sucessos em formato mp3. Seus hits mais conhecidos, alegres e dançantes, pareciam antecipar o seu fim: Corazón Valiente, No És Mi despedida, Fuiste, Lágrimas sobre El piano

Outras fotografias do Santuário de Gilda AQUI

Satisfeito com o que acabara de conhecer, segui a viagem reflexivo e novamente preocupado com algo que já me aturdia minutos antes da parada no km 129: o nível de combustível no tanque do carro. Os 70 litros de óleo diesel, em condições normais no Brasil, sempre me proporcionaram uma autonomia de cerca de 600km. Apesar do odômetro marcar apenas 500km rodados, o ponteiro, sem que eu percebesse, já indicava o zero absoluto. Uma pane seca seria questão de tempo. Muito pouco tempo. Para aumentar mais a agonia do piloto inocente, o aparelho de GPS não mostrava qualquer posto de combustível nas proximidades. E então, suavemente, a pesada L-200 foi deslizando pela autopista, silenciando vagarosamente seu motor e repousando sobre o acostamento gramado, no entardecer que a essa época do ano demora a se retirar.

Achei que a tormenta seria longa, já que os carros passavam em vôo baixo e seus motoristas não atendiam ao meu aceno solitário. Quase dez minutos após a pane, com meus nervos ainda acalmados, um VW Saveiro ligou a seta e se aproximou. Depois de uma curta e gesticulada conversa, a alma bondosa de Jorge, um senhor de uns 60 anos, me conduziu até o posto de combustível mais próximo, a uns 18km adiante do local, pouco após a bela Zárate. Conduziu, esperou a compra do botijão de emergência e me levou de volta ao carro, num papo atencioso sobre as razões da minha viagem e o Brasil, além de recomendações sobre as estradas e a qualidade dos combustíveis: apenas o Diesel Euro, algo emparelhado com o “aditivado” brasileiro. Carro funcionando, o velho partiu rapidamente, após me dar um caloroso abraço e me desejar boa sorte. Naquele momento tive mais uma prova da simpatia e receptividade do povo argentino – generalização rigorosamente por minha conta. Fui tocado por um respeito e disposição para a reciprocidade que chegaram para ficar.

Perto das 22h entrei na Ciudad Autónoma de Buenos Aires, ainda impressionado com o efeito das autopistas absolutamente velozes que passam estreitamente por entre os prédios da entrada da cidade, e praticamente desembocam na Avenida 9 de Julio, onde eu ficaria hospedado pelos próximos dias. Um encontro com a esposa, um banho revigorante e a noite de Réveillon em Puerto Madero, quase um território brasileiro. Adiós, 2010!

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5 comentários sobre “31/12/2010 – A História de Gilda

  1. Desde que me entendo por gente amo a língua espanhola e me identifico muito com a cultura dos países que nos cercam. O ritmo da cumbia então me reporta a tempos, como se eu já houvesse vivido alí. Há anos gosto da cantora Gilda, e todas as informações que colhi dela vinham de um site argentino que não sei por qual motivo foi retirado do ar. Fiquei arrasada, pois criei o 1º blog/site brasileiro como um simples tributo e estou munida de poucas informações. Fiquei feliz ao me deparar com este post e espero poder usar algumas de suas informações em meu website!
    Abraços e parabéns pela forma como discorres o assunto!

  2. Muito bacana esse texto. História bem contada e ótima narrativa. Gosto de informação sobre nossos viizinhos. Sempre sabemos mais sobre os Estados Unidos, que está a milhas de nós, do que os países que nos fazem fronteira. Bom, mais uma vez, parabéns !!!

  3. Eu agradeço, Jorge. A “nossa” coleção de histórias é mesmo gigantesca e envolvente. Muitas outras ainda virão.

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