Circulando o hau da coisa I: “LAS MALVINAS SON ARGENTINAS” ou O Anti-dom Britânico

Placa na Ruta 119, Mercedes, Corrientes, Argentina, 30/01/2011

Placa na Ruta 119, Mercedes, Província de Corrientes, Argentina, janeiro/2011

Desde os meus primeiros instantes em território argentino observei, por toda a extensão de várias rodovias das províncias de Corrientes e Entre Ríos, inúmeras placas com os dizeres reivindicatórios sobre as Ilhas Malvinas, uma provocação à memória cívica nacional e uma declaração de princípios para os visitantes estrangeiros. Muitas outras apareceram depois espalhadas, ao menos, pelos estados de Chubut, Córdoba, La Rioja e Misiones, onde lembro ter notado.

De posse britânica desde a década de 1830, as ilhas nunca tiveram sossego. Foram ocupações da França, Espanha, Grã-Bretanha e Argentina, que deixaram marcas na história e formação cultural local. Em 1982, no auge da repressão militar, o governo argentino, na intenção de inflamar e mobilizar o sentimento nacionalista da população, decidiu invadir a ilha e lá estabelecer soberania. Uma iniciativa que, todos sabemos, fracassou. Recentemente este debate voltou a lume. Tudo indica que a reavivação dessa polêmica se deu após os avanços britânicos na prospecção de petróleo (para eles, nas Falklands), numa região a que se atribui uma grande reserva do minério, e que a Argentina mais uma vez considera como parte autêntica de sua plataforma continental.

Nesse contexto econômico, as Ilhas Malvinas – possivelmente assentadas sobre uma “mina de ouro” – seriam uma dádiva para Argentina, assim como dizia Heródoto sobre o Nilo-Egito? Ou simplesmente sempre foram a tal dádiva, exclusivamente pela sua aproximação geográfica, já que parece natural que as nações continentais sejam as legítimas detentoras das ilhas que as circundam, mesmo para além dos limites regulamentados pela Convenção das Nações Unidas Sobre o Direito do Mar (CNUDM). Tão natural quanto os frutos de uma árvore pertencerem ao dono do pomar.

Independente desse conflito motivado por questões econômicas, a atitude argentina para com o imaginário nacional tem também sua razão simbólica e inconsciente de ser. Supondo as Ilhas Malvinas como um dom natural da Argentina (e do seu povo, por certo), a “tomada” pela Grã-Bretanha representa a expropriação de um bem privado, um anti-dom, um presente às avessas. E consta que a coisa tirada conserva seu espírito no lugar do seu nascimento. Por isso, a apropriação do bem alheio não tiraria o seu hau – um poder espiritual da coisa de circular pelo meio, e voltar para sua origem. Eis o fundamento do clamor argentino: o poder que o proprietário conserva sobre a coisa subtraída. Recuperar a dádiva é questão de honra.

E o impasse continua: Malvinas são Falkland? Ou são Malvinas, por serem argentinas? Distorcendo as antigas celebrações trobriandesas, as emulações são no mar, pelo mar, mas não celebram a união e interdependência. Ou seria apenas um típico caso do “Paradoxo de Frege”, onde sentido e referência vivem em permanente conflito?

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