Uma homenagem a Sebastião Heber Vieira Costa (*03/02/1950; †01/01/2011)

Estava em Buenos Aires quando recebi a notícia da morte do professor Sebastião. Distinto colega de trabalho, interlocutor sagaz, sempre tinha uma nova referência ou um ponto de vista curioso para me oferecer em cada rápido encontro pelos corredores da faculdade, ou nas conversas nos intervalos entre as diversas bancas de trabalhos de conclusão de curso que compartilhamos. Antropólogo, filósofo e pedagogo de formação, o padre Sebastião foi um dos cinco professores que compuseram a mesa avaliadora na minha defesa de tese de doutorado, realizada na última semana do mês de março de 2007. A seguir, a íntegra de um artigo de sua autoria publicado algumas semanas depois, na coluna Religião do Jornal A Tarde. Meus agradecimentos ao amigo atencioso e fraterno, que tão bem me acolheu na Fundação Visconde de Cairu.

EX-VOTOS: SIGNOS VOTIVOS DO NORDESTE BRASILEIRO

SEBASTIÃO HEBER

JORNAL A TARDE, RELIGIÃO, 26/04/2007, quinta-feira. Salvador-BA

No final de março participei de uma banca de doutorado na Ufba. O trabalho em julgamento foi apresentado pelo prof. Luís Américo Bonfim. A pesquisa em foco teve uma profunda atualidade pois trouxe à tona um problema de relação entre a doutrina oficial da religião – no caso, a católica – e as expressões da fé do povo que nem sempre coincidem. Falar em Signo Votivo no Nordeste do Brasil é falar em ex-votos. Sabemos como algumas das nossas igrejas estão repletas de ex-votos, como a do Senhor do Bonfim, expressões do agradecimento do povo a Deus, ou a algum santo, por graça alcançada. O ex-voto corresponde a um vasto universo impregnado de emoções. É impossível olhá-lo sem sentir o sentimento de quem oferece, dessa forma, um gesto de gratidão, uma “carta ao divino”, um diálogo sentido, sincero, de um ser humano com o mistério da vida (dor, morte, cura, sofrimento, etc.).

Este estudo é uma revelação de que, especialmente, no Brasil, há muitos segmentos que praticam a religião de forma privatizada, e o núcleo dessa prática provém da devoção aos santos, às vezes sem passar pela mediação de Cristo ou do próprio Deus Criador. Surgem duas modalidades básicas nessa relação fiel/santo: a 1a é devocional e é uma relação de aliança – o santo desempenha um papel de “padrinho celeste” e essa relação é duradoura (pão de S. Antônio, esmola para os cegos de Sta. Luzia). A 2a relação é chamada de contratual: há um contrato explícito entre ambos tendo em vista a obtenção de uma graça. Recebendo o milagre, o santo cumpriu a sua parte; compete agora ao devoto mostrar o seu reconhecimento por meio de um sinal: a promessa deve ser paga. Aqui entra a dimensão deste trabalho: o ex-voto como resposta de uma promessa cumprida. Mas esse contrato é transitório: obtida a graça e paga a promessa, nada mais existe entre ambos os lados. Claro que acontece que uma relação transitória, mas que foi bem sucedida, pode dar lugar a uma aliança permanente. Mas ambas as relações têm uma marca característica de serem um relacionamento pessoal e direto.

Essa privatização da religião nunca foi vista com bons olhos pela Igreja oficial (de qualquer credo). O prof. E. Hoornaert falando sobre o Conselheiro de Canudos, mostra bem essa tensão que há entre os administradores oficiais do sagrado e o povo na sua expressão religiosa particular. Poderíamos nos perguntar se essa prática – a da privatização – implicaria numa autonomia com relação à Igreja Oficial, isto é, se seria um outro catolicismo, ou é simplesmente uma reação ao processo de romanização (o ultramontanismo), por que, na prática, os mesmos fiéis se deixam suplementar com as práticas do catolicismo romano, sobretudo aquelas que marcam ritos de passagem (1a comunhão, batismo, casamento, funerais). Naturalmente que levamos em conta a observação de G. Freyre de que o nosso catolicismo, na colonização, não era o dos cânones tridentinos, mas sim aquele que, no contato com as formas religiosas africanas, “como que se amorenou, os santos adquirindo da terra uma cor mais quente de carne que a européia”.

Essa tese leva em conta este aspecto e se apóia no mestre Thales de Azevedo para afirmar que o “catolicismo brasileiro herdou da cultura portuguesa certa brandura, tolerância e maleabilidade, talvez possibilitando o fato de que muito do que se assimilou coletivamente foi compartilhado fora dos círculos da formalidade”.

Certamente, não conseguiremos avançar no estudo da religião e das expressões religiosas, enquanto não fizermos uma distinção clara entre a palavra positiva, cognitiva, analítica de nossas chamadas “ciências” e a palavra emotiva, simbólica, dialogal e gratuita da religião, em expressões como essa que foi abordada nesse trabalho centrado no signo votivo.

O filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein pode ser considerado como um dos mais avançados na abordagem da filosofia da religião. Ele mostra a palavra matemática como algo isento de contágios, provenientes da emoção, da fantasia, e como conseqüência, da religião. Galileu anunciara que todo e qualquer tipo de consideração que não obedeça ao rigor experimental, tem de ser afastado. A palavra religiosa – o signo votivo – é uma palavra roubada do universo matemático, pois a palavra passa a dizer outra coisa (não é mais para contar, segurar, dominar – Aristóteles ensinou a Alexandre Magno, de forma matemática, a dominar os povos sem escrita – mas para levar o interlocutor para o universo de uma nova compreensão. A religião não se expressa em proposições dotadas de significado descritivo ou cognitivo, ela apenas pode ser mostrada em ações e atitudes. Daí a abordagem antropológica desse trabalho. A palavra religiosa não descreve fatos, mas expressa sentimentos e dinamiza ações. No momento em que se quer saber em que fatos se baseiam determinadas palavras religiosas (como revelação, encarnação, ressurreição, ascensão, céu, milagres, cura, aparição), tudo se dilui.

A religião não trabalha com conceitos objetivantes, mas com palavras que nos transportam para além do universo da explicação científica e introduzem no universo propriamente humano da admiração, da contemplação, do desejo, da esperança, do encontro e da gratuidade segundo a visão de Mauss. E os ex-votos correspondem a esse universo. De parabéns está o autor, Luís Américo Silva Bonfim, pela brilhante pesquisa que é, certamente, uma grande contribuição, imparcial e atualizada, para o estudo do signo votivo católico, os ex-votos, que marcam, sinalizam uma relação direta e pessoal, o santo estando ao alcance imediato do fiel.

Sebastião Heber Vieira Costa é professor de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho e da Fundação Visconde de Cairu, membro do instituto Geográfico e Histórico da Bahia e da Academia Mater Salvatoris; colabora nas paróquias da Vitória e de S. Pedro.

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3 comentários sobre “Uma homenagem a Sebastião Heber Vieira Costa (*03/02/1950; †01/01/2011)

  1. Caro Luis Américo,

    Justa homenagem. Como aluno e amigo desse homem de caráter ilibado e proficiente professor, quero me aliar nesse intento e dizer que Sebastião Heber foi um grande fomentador da nossa cultura e um mediador inter-religiões: católica e candomblé. Mostrando uma forma inteligente e dialética de relações entre raças e credos. Sou feliz e sinto-me honrado por ter sido aluno e amigo. Minha ultima lembrança dele foi quando ele celebrou meu casamento. Uma alegria imensa. Por tudo e pelo homem que ele foi: Deus lhe guarde amigo!

  2. O ex-Abade do Mosteiro de São Bento de Olinda-Pe, Dom Sebastião Heber, foi o monge-pai que me recebeu, em l989, quando eu fui um vocacionado ao Mosteiro de São Bento de Olinda. Era o Abade que eu mais gostava. Era um monge amoroso para com todos os monges da Abadia de Olinda. Ele me apoiou muito. Eu via que ele sonhava com a minha entrada no Mosteiro de Olinda. Mas não foi realizada, em virtude ao meu grande namoro com a Filosofia, na qual já era formado à época. Teve uma morte prematura, pois era um grande homem santo.
    odeciomendesrocha philosopher

  3. Fui pego de surpresa esta manhã ao saber que Sebastião Heber havia falecido em 01/01/2011 (isso mesmo, há mais de um ano).
    Me entristeci bastante, pois era uma pessoa muito querida por mim, por ter tido o privilégio de ouvir seus sábios conselhos e comentários sempre positivos e incentivadores.
    Era uma pessoa muito culta, rico em experiências de vida, conhecedor de religiões, movimentos culturais, pessoa muito simples, querido, acolhedor, ouvinte, e também conhecedor dos seus alunos, pelos quais sentia admiração que era visível.
    Como orientador da minha monografia do curso de Urbanismo em 2007, foi muito melhor do que eu precisava naquele momento.
    Se eu fosse de orar, o faria bastante pelo seu espírito, pois ali estava uma pessoa por quem valeria a pena orar.
    Quem não o conheceu, realmente perdeu bastante.
    O mundo era pequeno para sua grandiosidade.

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