Os ex-votos na “Missão de Pesquisas Folclóricas” (1938)

Fonte: CCSP

Foto-montagem com fotografia do caminhão da equipe da Missão de Pesquisas Folclóricas. Sem registro (Fonte: CCSP)

A Missão de Pesquisas Folclóricas foi um grupo de trabalho organizado em 1938 pelo escritor Mário de Andrade, então responsável pelo Departamento de Cultura do Município de São Paulo. Teve como objetivo recolher documentos, textos, indumentárias, filmes e fotografias que pudessem esclarecer sobre o folclore musical, inicialmente nas regiões Nordeste e Norte do Brasil. A Missão foi composta por Luís Saia (na época estudante de engenharia e arquitetura e chefe da missão), Martin Braunwieser (músico e maestro), Benedicto Pacheco (técnico de gravação) e Antônio Ladeira (auxiliar geral). A metodologia empregada pelo grupo foi fruto do curso “Instruções Práticas Para Pesquisa de Antropologia Física e Cultural”, primeiro no Brasil sobre os fundamentos e métodos do trabalho etnográfico e que resultou, ainda na década de 1930, na fundação da Sociedade de Etnografia e Folclore (SEF), pelo casal Claude e Dina Lévi-Strauss, então professores da recém-fundada Universidade de São Paulo (USP).

Fonte: CCSP

Os Integrantes da Missão de Pesquisas Folclóricas: Martin Braunwieser, Luis Saia, Benedicto Pacheco e Antonio Ladeira, março/1938. Recife-PE. Sem registro (Fonte: CCSP)

A coleta de objetos etnográficos pelo grupo foi numerosa e diversificada. Foram recolhidos instrumentos musicais, ferramentas de trabalho, artes decorativas, roupas e tecidos e objetos litúrgicos de diferentes orientações religiosas (especialmente dos Xangôs do Recife, apreendidos pela polícia num momento histórico em que os cultos de matriz africana eram duramente perseguidos no Brasil). Além disso, foram produzidas por meios áudio-visuais centenas de horas de cantigas populares e filmes documentais em localidades espalhadas pelos estados de Alagoas, Pernambuco, Paraíba e Piauí. O fato da Missão sair direcionada à pesquisa de temas do canto e da dança popular fez com que a presença dos objetos votivos fosse uma impactante e grata surpresa, algo confirmado por Luis Saia anos depois, em “Escultura Popular Brasileira” (1944). A “tradição viva do milagre de madeira” era uma espécie de tesouro escondido, encontrada ao acaso (na cidade de Meirim-PE, no sertão do Moxotó) e imediatamente incorporada como um dos focos de atenção do grupo, sendo assim revelada ao mundo acadêmico num status privilegiado. A Missão concentrou-se na coleta de peças escultóricas, especialmente em madeira. Pinturas e fotografias só foram citadas e incluídas em João Pessoa, única capital de estado na região onde se realizou coletas de objetos votivos católicos. Os documentos e relatos do grupo não esclarecem suficientemente sobre a constatação da existência de outros tipos de objetos depositados nos cruzeiros, capelas e igrejas, o que não é suficiente para afirmar ou duvidar da existência de variedades, até porque as fotografias tomadas pelo grupo na época focaram-se em objetos, não exatamente na documentação das vistas gerais dos lugares. Foi no ano de 2000 que conheci a primeira referência sobre a Missão de Pesquisas Folclóricas. Tudo começou com a leitura um livreto (“Promessa e Milagre”) que tratava dos ex-votos de Congonhas-MG, gentilmente presenteado pela advogada mineira Regina Caldeira, com quem mantive breve e profícua correspondência. A pequena obra, com primoroso texto de Lélia Coelho Frota, acabou por se tornar um divisor de águas na minha pesquisa. Fosse pela citação histórica e geográfica dos mais importantes centros votivos do Brasil, fosse pela breve e suficientemente profunda abordagem acerca do milagre como fato cultural e social, os novos rumos se mostraram estimulantes à imaginação. Numa das primeiras experiências expedicionárias pela nossa região nordeste, ainda em janeiro de 2004, as pistas apresentadas no livro se tornaram a principal referência na produção do meu roteiro de observação. Iniciei um reconhecimento e localização cartográfica dos centros votivos citados, buscando constituir um mapa e estabelecer as vias de deslocamento entre eles. No entanto, aquela fora uma viagem meramente exploratória, já que não adotei critérios mais rigorosos de observação e registro do trabalho de campo, até porque, nem imaginava que o rumo da tese seguiria em pouco tempo aquelas novas tendências. Em meados do primeiro semestre de 2004 as fontes sobre o assunto se enriqueceram. Após contato com o Centro Cultural São Paulo (CCSP), obtive gentilmente o livro Acervo de pesquisas folclóricas de Mário de Andrade: 1935-1938, publicado no ano 2000 com tiragem limitada. Em agosto de 2006, pela intervenção de duas amigas baianas em visita ao Centro, fui presenteado com as fotocópias do Catálogo ilustrado do Museu Folclórico (1950) e do livro Escultura popular brasileira (1944), de autoria de Luís Saia, o chefe da comitiva e um dos alunos do primeiro curso de etnografia realizado no Brasil. Voltei a campo nos meses de julho e agosto de 2006, desta vez sim, com um projeto muito bem definido e com questões claras a serem respondidas no contato com os fenômenos gratulatórios. Percorri algumas dezenas de sítios votivos, com atenção especial para os que foram observados em 1938. Por aquela época comecei a utilizar protocolos de observação – que se transformaram nas Fichas de Inventário de Sítio (FIS) – cuja função era descrever da maneira mais detalhada possível o espaço votivo, a natureza e forma expressiva dos artefatos e todas as variações observadas no contraste de um espaço com outro. A riqueza maior dessa experiência não foi o volumoso conjunto de informações que levei pra casa. Foi perceber o quanto há de vivo nos acervos e documentos do passado quando revisitados contemporaneamente. A dinâmica demográfica daqueles quase setenta anos transformou vilarejos em cidades, reorganizou a delimitação de municípios, substituiu topônimos, transferiu fiéis depositários de cultos privados, condicionou o sentido da vida e o rumo de famílias inteiras. Permitiu que um mundo de teorias socioantropológicas fosse percebido, ali, vivo e efervescente! Em julho de 2008 estive no Centro Cultural São Paulo, em dois dias de imersão no acervo da Missão de Pesquisas Folclóricas e de cuidadoso exame dos documentos de transcrição da caderneta de campo de Luís Saia. Como brevemente faria outra viagem aos estados do nordeste, dediquei alguns dias para conhecer in loco as fontes que já conhecia aos fragmentos. Desde então, realizei mais quatro “missões” pelo nordeste do Brasil, sempre ampliando o thesaurus dos objetos e expressões votivas, bem como das formas e perfis devocionais. Com base nos estudos realizados desde 2004, o balanço dos dados originais sobre as coletas da Missão e a longevidade dos ritos resultou no seguinte quadro:

Estado Cidade Sítio Devoção

PE

Tacaratu

Cruzeiro da Serra da Gameleira*

Cruzeiro

Capela de N. S. dos Navegantes

N. S. dos Navegantes

Santa Quitéria

(São João)

Capela no povoado de Freixeiras*

Santa Quitéria das Freixeiras

Meirim

(Jatobá)

Capela de Santo Antônio

Santo Antônio

PB

João Pessoa

Cruzeiro da Penha*

N. S./Virgem da Penha

Itabaiana

Cruzeiro Maria de Melo

Cruzeiro

Alagoa Grande

Cruzeiro do Monte Tabor

Cruzeiro

Cruzeiro do Engenho Macaíba

Cruzeiro

Areia

Cruzeiro de Chã (o) do Jardim

Cruzeiro

Patos

Cruzeiro da Menina*

Menina Francisca

PI

Jaicós

Cruzeiro do Morro dos Três Irmãos*

Três Irmãos

Quadro-síntese das referências sobre expressões votivas na Missão de Pesquisas Folclóricas, 1938.

Fonte: SAIA (1944), CATÁLOGO ILUSTRADO DO MUSEU FOLCLÓRICO (1950), CCSP (2000).

* Devoções ativas em 2011.

Além dessas localidades que foram efetivamente visitadas, Saia declarou ter conhecimento de outras devoções do Nordeste, pelas quais não passou com a Missão, localizadas em Paudalho-PE (culto a São Severino dos Ramos), Salvador-BA (Senhor do Bonfim) e Juazeiro do Norte-CE (Padre Cícero, morto quatro anos antes, mas já envolvido em grande comoção devocional). Em agosto de 2010, estive com o etnomusicólogo carioca Carlos Sandroni, que publicara na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (1999) o artigo “Notas sobre Mário de Andrade e a Missão de Pesquisas Folclóricas de 1938”. O texto trata de um importante trabalho de reconstituição contemporânea das trilhas da Missão, no seu caso, envolvendo as pessoas que vivenciaram a passagem do grupo e seus herdeiros, num exercício de feed-back antropológico envolvendo muitas gerações. O texto me encantara não só pela atitude sensível de abrir o baú do tesouro aos seus autênticos donos, mas especialmente por me identificar completamente com a trajetória de ligar presente, passado e futuro. Era exatamente aquele o meu ofício com os ex-votos. Professor adjunto da UFPE, Sandroni viera a Salvador para apresentar a conferência “Patrimônio e Samba de Roda”, no “Seminário Internacional Avançado em Estudos Étnicos e Raciais Patrimônio, Memória e Identidade”, promovido pelo Centro de Estudos Afro-orientais da Universidade Federal da Bahia. Conversamos sobre a possibilidade de ampliarmos o quadro desta investigação sobre os ex-votos a outras universidades nordestinas, uma porta que ainda se encontra aberta. Neste mês de maio de 2011 o Centro Cultural São Paulo lança o DVD Missão de Pesquisas Folclóricas – Cadernetas de Campo, patrocinado pela Caixa Econômica Federal por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura. Definitivamente, é a prova de que ainda vive a disposição em dar reconhecimento público ao imenso valor da cultura popular. Vivem ainda os ideais de Mário de Andrade! © Todos os direitos reservados

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s