Por una cabeza

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O que se passa por uma cabeça? Eis uma pergunta recorrente, sempre lembrada ao observar qualquer daqueles sítios votivos tradicionais, repletos de peças em madeira, gesso, argila, cera ou em belas e pequeníssimas esculturas em placas metálicas, como ocorre no Museu dos Ex-votos da igreja do Carmo Menor (São Cristóvão-SE, devoção ao Bom Jesus dos Passos) e na devoção a Nossa Senhora da Cabeça (em Maceió-AL, na igreja de Bom Jesus dos Martírios ou mesmo na igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Igarassu-PE). Em dezembro de 2001, na primeira de tantas outras visitas que fiz ao citado museu sergipano, o protocolo de pesquisa que eu tinha em mãos mostrava seu primeiro ponto de fragilidade, num turbilhão de perguntas: Quais, afinal, as realizações/motivações pessoais expressas no tal objeto? Que histórias de vida conta? Quais as abstrações concretizadas ali? A minha cara ferramenta de pesquisa, pensada pra ser descritiva, objetiva e precisa, me deixava, naquele instante, um novo dilema. Como extrair o significado mais íntimo de uma expressão que, de tão íntima, tendia a se fechar em linguagem excessivamente privada?

Essa mesma questão já inquietara Maria Augusta Machado da Silva, que em texto do Catálogo da Exposição “Arte Popular Brasileira” (MAM-RJ, 1976) demonstra, com visível descontentamento, as possíveis mensagens ocultas nas peças de madeira, para além das marcas de “ferimentos, sinais de doenças e enfermidades”: para a autora, expressariam também loucura e dificuldades da vida. Uma coisa parece certa para ao menos uma dessas possibilidades: é sempre a loucura de outrem a invocada no ex-voto. Certamente, um devoto com duvidosa raridade referir-se-ia à própria “loucura” num relato votivo. Assim também parecem caminhar as referências ao vício em álcool (são comuns oferendas de garrafas e copos nessa intenção) ou outras substâncias psicoativas – quase sempre são clamores de terceiros. Mas já li e ouvi relatos sobre permanentes dores-de-cabeça, tumores, depressões, dores-de-ouvido e até promessa para a cura da calvície. Tudo isso representado por uma simples cabeça. Para outra hipótese levantada pela mesma autora, de a cabeça escultórica representar a ausência in loco do promessante, creio que as fotografias em 3×4 (ora, são cabeças!) sejam, há muito tempo, uma expressão mais difundida e simplificada do caso, especialmente nas proximidades de centros urbanos maiores.

A partir da Missão de Pesquisas Folclóricas (1938), o “gênero de esculturas” em madeira é tido como a síntese estética mais elaborada da expressão do milagre. E foi exatamente das coletas da Missão (Luis Saia) que surgiu no Brasil a primeira coleção a retirar os ex-votos dos espaços sagrados e apresentá-los em museus e galerias de arte. Depois tornaram-se famosas as coleções privadas de F. Marcelo Cabral, Jacques van de Beuque, Lula Cardoso Ayres, Giuseppe Baccaro, Abelardo Rodrigues, Mário Cravo Júnior e Sante Scaldaferri, entre outros.

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