Congonhas-MG: Práticas votivas em revista

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG. Abril/2012

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG. Abril/2012

Onze anos após a última visita, retornei no final deste mês de abril à cidade que me revelou os ex-votos como objeto de pesquisa. Nessa recente oportunidade, a cidade se mostrava bem diferente daquela que conheci em 1999, durante a festa do Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos. Anualmente realizada de 07 a 14 de setembro, a romaria ao Santuário iniciou-se logo da sua fundação, em torno do ano de 1757, o que faz desta celebração uma das mais antigas do Brasil, ao lado das festas de Nossa Senhora da Conceição Aparecida (1717, Aparecida do Norte-SP), do Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim (1754, Salvador-BA) e do Círio de Nossa Senhora de Nazaré (1793, Belém-PA), por exemplo. Tudo surgiu no pagamento da promessa do português Feliciano Mendes, cuja saúde foi debilitada no trabalho de mineração, em fevereiro de 1757. No mês de junho daquele mesmo ano, o primeiro bispo de Mariana, Dom Frei Manoel da Cruz, aprova a devoção e dá licença para a construção do templo, no alto do Morro Maranhão. Depois de dois anos o corpo da igreja já estava pronto.

O Santuário de Congonhas é um dos sítios brasileiros reputados pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade (1985). Razões não faltam: o famoso adro no qual se espalham esculturas em pedra-sabão dos doze apóstolos – uma das últimas obras de Aleijadinho, as Capelas dos Passos, com suas esculturas em cedro rosa, pintadas pelo mestre Ataíde e outro conjunto de relíquias: 89 peças votivas pintadas à mão, todas produzidas entre o século XIX e a primeira metade do século XX, tombadas pelo IPHAN em 1980.

Como novidade, encontrei a instalação de três amplos tabuleiros (expositores em vidro) fixados nas paredes internas da Sala dos Milagres, nos quais as pinturas tombadas se somam aos ex-votos que continuam sendo ofertados em grande volume: o que era uma sala, tornou-se Museu. Predominam as fotografias (cópias coloridas, com e sem molduras) e manuscritos autógrafos. Há mais desenhos e pinturas do que em qualquer outro sítio votivo do nordeste do Brasil. No entanto, eram pouquíssimas as peças tridimensionais analógicas de partes do corpo humano (pés, cabeças, pernas, etc.). Vi umas três ou quatro moldadas em cera e um ou outro caso em gesso ou esculpida em madeira. Cura de doenças e sobrevivência em acidentes eram as graças mais citadas.

Museu dos Milagres do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG. Abril/2012

Museu dos Milagres do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG. Abril/2012

Em elevação oposta à do Santuário, localiza-se o Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, onde repousam, pelo menos, dois mitos milagreiros populares. O lócus mais conhecido é o túmulo de Zé Arigó (José Paulo Freitas), autor de curas mediúnicas incorporando o médico alemão Dr. Adolf Fritz. A discreta presença de flores frescas no seu túmulo contrasta com o festivo apelo às graças das meninas Adriana e Vera Lúcia, cujo túmulo é repleto flores ornamentais em tecido, doces e bombons, brinquedos de plástico e algumas imagens de santos moldadas em gesso. “Mártires do rio Maranhão”, as inocentes (1 e 2 anos de idade) morreram afogadas no dia 21 de abril de 1975.

Túmulo de Zé Arigó no Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, Congonhas-MG. Abril/2012

Túmulo de Zé Arigó no Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, Congonhas-MG. Abril/2012

Também no ciclo mineiro, o espontâneo e o eclesiástico dividem o mesmo espaço na fé do povo. E, bem diz Cascudo, é o povo quem faz seu santo.

Túmulo das meninas Adriana e Vera Lúcia no Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, Congonhas-MG. Abril/2012

Túmulo das meninas Adriana e Vera Lúcia no Cemitério de Nossa Senhora da Conceição, Congonhas-MG. Abril/2012

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