Senhor do Bonfim da Bahia: celebrações e práticas votivas

Montagem de fotos de Luís Américo Bonfim

Muitos textos… Tantas palavras. 1o Ano Ensino Médio/SESI-SP. 1. ed. São Paulo-SP: SESI, 2012.

Depois de muita espera, recebi um exemplar da publicação do SESI-SP/Módulo Editora (PR), Muitos textos… Tantas palavras, na qual contribuo com um dos capítulos. Trata-se de uma reflexão sobre a Lavagem do Bonfim pós-Dom Lucas Moreira Neves, quando, há aproximadamente quinze anos, os espaços entre o sagrado e o profano, o espontâneo e o institucional, também eram motivo de entreveros nas festas de largo da capital baiana. Foi uma das minhas primeiras experiências etnográficas, agora disponível para o debate de jovens do 1o Ano do Ensino Médio. Infelizmente, o texto publicado no livro não considerou a revisão (alterações e atualizações) que enviei à editora com longa antecedência. Os editores descobriram um texto meu escrito em 2000, fossilizado na internet, que seria ajustado para compor a publicação que eles organizavam. Lamento por outras derrapadas gráficas, agora irreversíveis, mas ainda assim gostei da menção.

Link para download do texto enviado à Editora, em PDF: http://pt.scribd.com/…/BONFIM-LAS-Lavagem-Do-Bonfim…

E aproveitando o ensejo, seguem algumas considerações sobre as práticas votivas dedicadas ao Senhor Bom Jesus do Bonfim, num recorte de trechos da minha tese.

Os ex-votos do Senhor do Bonfim

O termo “bom fim” define um rito de passagem: a boa morte, o “bem morrer”. No Brasil de antanho, a partida ideal para o mundo dos mortos, especialmente entre os mais abastados, deveria contemplar o passante não apenas dos indispensáveis sacramentos cristãos (comunhão, penitência e extrema-unção), mas de uma assistência solidária de todos os seus entes mais próximos. O historiador João José Reis, no seu livro A morte é uma festa, acrescenta que “a boa morte significava que o fim não chegaria de surpresa para o indivíduo, sem que ele prestasse conta aos que ficavam e também os instruísse sobre como dispor de seu cadáver, de sua alma e de seus bens terrenos”. O “bom fim” era garantia de distância do inferno. E com fé no Nosso Senhor do Bonfim, foi trazida de Portugal para a Bahia, em 1745, uma imagem-reprodução do Cristo Crucificado diretamente da Igreja de Setúbal, pelas mãos do Capitão-de-Mar-e-Guerra Teodósio Rodrigues de Faria, como pagamento de uma promessa pactuada numa de suas dramáticas travessias do Oceano Atlântico. O culto iniciou-se na Igreja da Penha, sendo nove anos depois conduzido para a igreja do alto da colina de Itapagipe (também construída como uma oferta votiva), onde se encontra até hoje.

Para o historiador e crítico de arte Clarival do Prado Valladares, em seu livro Riscadores de milagres: um estudo sobre arte genuína, a característica mais relevante para a evocação ao Senhor do Bonfim “é a de socorrer nas angústias da morte próxima, nos perigos e na beirada das grandes frustrações”, sendo chamado de “nosso Pai”, “o Poderoso”, “o meu Senhor”, “o meu bom Senhor”. Nesta obra, um dos mais interessantes estudos brasileiros dedicados ao assunto,  Valladares apresenta o esboço de um inventário das “salas dos milagres” da Igreja do Bonfim, analisando, com muita objetividade e critério, quase 150 peças votivas de diversas tipologias, fruto de duas incursões ao lugar, a primeira entre 1939-40 e a outra entre 1960-61. Apesar deste considerável intervalo entre as duas visitas, Valladares não revela conclusões sobre algum tipo de ação do tempo sobre as peças e expressões votivas observadas, nem se aprofunda em direção a uma análise das relações religiosas. Seu enfoque é estritamente voltado para a crítica de arte e interessado na “manifestação estética do artista primitivo” (…) “aquele que produz ou constrói, objetos de qualidade ou de causalidade artística para o consumo implícito ao seu meio sócio-cultural”. E segue, “primitivo significa, neste ensaio, o artista genuíno desprovido da habilitação e do discernimento, exigidos pela civilização, no reparo dos objetos destinados ao consumo e ao deleite dos estratos sociais elevados”. Talvez hoje em dia se possa considerar estas definições um tanto quanto etnocêntricas, mas são capazes, ao menos, de determinar sistemas de valores sociais que ainda não foram superados completamente na atualidade. Por isso elas ainda guardam algum sentido didático.

Valladares é cauteloso ao tomar distância das avaliações de ordem religiosa (intentando libertar os ex-votos de “outras atribuições”), e deixa claro que sua seleção levou em conta as peças que mais o “impressionaram, por uma qualidade artística ou por alguma razão de ordem científica”. A obra concede uma inédita visibilidade aos ex-votos do Senhor do Bonfim e apresenta generosas fontes históricas sobre as práticas votivas no mundo ocidental, além de um breve estudo acerca da “arte cemiterial popular” da capital baiana.

Sem uma preocupação mais sistemática do ponto de vista taxonômico, Valladares criou inicialmente um sistema classificatório regido pelo tipo de material utilizado:

  1. Ex-votos em cêra, madeira e ourivesaria (destaca que os ex-votos de cera representam basicamente partes do corpo e quanto aos de madeira, “por cujo valor escultórico ganham cobiça, poucos restam”);
  1. Ex-votos de objetos e pertences ao próprio fato de o milagre (radiografias, fotografias, objetos como uma agulha de costura, restos de embarcações);
  1. Ex-votos em desenho e pintura (de suportes e técnicas diversas, nos quais ressalta a intenção narrativa);

Cada uma destas categorias é ilustrada por relatos verbais correspondentes a cada expressão típica, sobre os quais o autor procede a uma análise discursiva, em alguns casos amparado pela reprodução fotográfica da peça em consideração. Valladares considera que, “num certo sentido, poderia denominar muitos dêsses ex-votos simplesmente de correspondência com o Senhor do Bonfim”, ressaltando a “existência humana que se dá ao Senhor do Bonfim, no modo como é tratado nas dedicatórias, cartas e rogos”.

De um modo geral, as 148 peças analisadas por Valladares estabelecem uma relação entre suas expressões verbais e não verbais, com um foco bastante dirigido para a crítica das motivações sociais (contexto sociocultural da peça, do autor da peça e do ofertante/milagrado), considerando as condições de produção, distribuição e consumo. É certo que sua contribuição nos serviu de inspiração e fonte de referência, apesar das incoerências do esboço taxonômico. Valladares não chegou a centrar suas forças no desenvolvimento de uma epistemologia dedicada ao ex-voto, objeto em estudo. Mesmo assim foi capaz de produzir o conjunto de conclusões mais completo que tive a oportunidade de conhecer, entre todas as outras tentativas que já conheci.

O sistema classificatório que ele adotou preliminarmente mescla a função crônica da oferta (presentes e ex-votos propriamente ditos, por exemplo), as formas expressivas da oferta votiva (bases tipológicas) e suas propriedades de expressão sígnica (valor icônico, indicial ou simbólico). Procurei estabelecer e aprimorar essas distinções nos estudos que desenvolvi no campo da taxonomia da oferta votiva.

Quanto ao panorama de diversidades que apresentou no livro, posso afirmar que quase 75 anos depois esta é uma característica que só se reforça. O Museu dos Ex-votos ainda ostenta uma reserva técnica sem similar em toda a região Nordeste. A relativamente pequena “sala dos milagres”, na nave direita da igreja, encanta por alinhar testemunhos recentes com outros muito antigos, por não estabelecer distinções valorativas entre o que é exclusivamente católico e o que é de motivação sincrética e por ser um espaço público e extremamente acessível às oblações votivas.

A fé no Senhor do Bonfim torna sua “sala dos milagres” muito mais extensa do que a limitada no interior da igreja. De dia ou de noite, a Colina Sagrada é sempre um espaço de expressão de pedidos e agradecimentos, riquíssimo palco de performances pessoais, lugar que dilui definitivamente o rigor e a tangibilidade do que se pensa como sagrado. A fé no Senhor do Bonfim é um autêntico signo do patrimônio cultural baiano, acima de qualquer outra forma de classificação normativa.

A presença votiva do Senhor do Bonfim é uma das mais antigas do Brasil (a devoção já tem mais de duzentos e cinquenta anos), mas impressiona o seu vigor contemporâneo. Pelo valor artístico ou pelo valor religioso, as práticas votivas dedicadas ao Senhor Bom Jesus do Bonfim são essencialmente distintas da maioria do que se pode encontrar pelo nordeste do Brasil. A começar pelo caráter transcanônico da devoção: Senhor do Bonfim é sincretizado com Oxalá – segundo afirma Pierre Verger na sua obra Orixás – deuses iorubas na África e no Novo Mundo, “sem outra razão aparente senão a de ter ele, nesta cidade, um enorme prestígio e inspirar fervorosa devoção aos habitantes de todas as categorias sociais”, e afirma, ainda, que a Lavagem é uma aproximação com outra festa de origem africana: as “Águas de Oxalá”. Por essas razões,  as matrizes religiosas católica e afro-brasileira (especialmente o Candomblé) criam uma simbiose de harmonia poucas vezes verificada em qualquer outro lugar do país. A Lavagem do Bonfim é uma prova viva dessa manifestação de hibridação cultural, o Museu de Ex-votos e a tradicional e renovada “sala dos milagres” são outras.

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