11 de setembro de 2001, Congonhas-MG

Já te perguntaram onde você estava no dia 11 de setembro de 2001? A data fatídica do ataque às Torres Gêmeas (WTC), em Nova York, completa quinze anos. Os impactos na sociabilidade do planeta ainda estão em pleno processo de acomodação. Talvez ainda estejam pelas próximas décadas. Um dia impossível de ser esquecido, numa oportunidade trágica de ver a História sendo escrita em tempo real.

Amanheci naquela terça-feira, que tinha mesmo tudo para ser diferente, em solo mineiro. Recém iniciara a pesquisa de doutorado em Ciências Sociais, pela Universidade Federal da Bahia, àquela altura muito interessado nas práticas votivas do santuário que revelou os ex-votos como o meu principal objeto de pesquisa. Fui à cidade de Congonhas (poeticamente chamada, no passado, de Congonhas do Campo) em busca de, pela segunda vez, observar a festa do Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos, celebração que sempre acontece entre os dias 07 e 14 de setembro, desde 1779.

Planejei à risca a visita e todo o trabalho em campo, que seria relativamente curto (de 09 a 12 de setembro). Meus objetivos eram realizar uma observação sistemática, fotografar, catalogar as ofertas votivas e aplicar um questionário aos fiéis, com vistas a mapear o movimento dos romeiros e determinar por que caminhos um devoto se envolve com a promessa e como se comporta nas diversas fases de uma graça alcançada (origem e destino do romeiro, tempo de permanência na cidade, detalhes sobre a própria devoção, a consagração do voto e a eventual produção e aparição do ex-voto). Mas o campo é vivo e dinâmico. Já no primeiro dia, um iluminado e longo domingo, tive a oportunidade de me defrontar com elementos transversais à pesquisa que eu não contava: a vitalidade dos discursos dos sujeitos (em grande medida diferente das expectativas e evidências que o discurso científico sobre a fé sugeria, o saudável embate êmico x ético), as relações sociais que os integravam e as posições que estes sujeitos ocupavam naquele sistema, o risco de invasão da intimidade do fiel, em seu momento de profundo envolvimento espiritual, as vivíssimas fronteiras do sagrado, em muito pouco obedientes às determinações eclesiásticas…

Naquela segunda visita à festa, mais uma vez me chamou a atenção a divisão do seu espaço social. Enquanto muitos fiéis formavam enormes filas para ver a imagem do Bom Jesus no interior do Santuário ou mesmo para participar da “Entrevista aos Romeiros” – um depoimento in loco que era transmitido por rádio em amplitude modulada (AM/OM, Ondas Medias) e em Ondas Tropicais (OT) – tantos outros se espalhavam pelas estreitas ruas em torno da Basílica. As igrejas barrocas mineiras, via de regra, têm uma área interna muito reduzida, apesar do luxo e suntuosidade expostos. Quase que regidos por uma pauta, os fiéis se apresentavam (pronunciam nome completo e idade), falavam da sua cidade de origem, faziam as menções dos parentes ausentes, apresentavam seus pedidos (votos) ou agradecimentos e confirmavam a hora e dia de retorno às suas casas. As caixas de som se espalhavam pela área das Capelas dos Passos e pelos lados da igreja, produzindo um som confuso, misto dos cânticos das missas com as mensagens de fé, adicionados aos altos volumes musicais das barracas próximas, um fundo musical exuberante e irregular, numa autêntica profusão barroca.

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“Entrevista aos Romeiros”, em frente à Igreja Basílica de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG, setembro/2001. Foto: Luís Américo Bonfim.

Dentro de toda esta movimentação, sazonal por excelência, muitas pessoas da cidade e dos seus arredores lucram com a festa. São vendedores profissionais e de ocasião, que durante os oito dias do Jubileu obtêm recursos para meses. O acesso à igreja, que em dias comuns se faz em uns cinco minutos, nos dias da festa levou mais de vinte. No caminho onde normalmente não era permitida a circulação de veículos automotores, mal se podia andar a pé. A feira se estendia pelas ruas de trás da Basílica, parecendo não mais terminar.

 

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Aspecto da feira do Jubileu do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas-MG, setembro/2001. Foto: Luís Américo Bonfim.

A movimentação comercial, que historicamente se destaca como um dos pontos altos da festa, naquele ano parecia mais agitada. As vielas e os becos apertados ficavam ainda menores para atender à massa de compradores, que em muitos casos, a depender da sua origem, tinham na feira a principal oportunidade de compra do ano. O comércio como uma expressão “profana” da festa me pareceu, novamente, algo intrigante. No meu segundo dia no campo, 10 de setembro, decidi, de maneira criteriosa, estabelecer uma contagem do universo das barracas que ocupavam as principais ruas nas imediações do templo, uma espécie informal de “censo do comércio informal”. O critério para se considerar uma barraca como “válida” levou em conta a área ocupada, o volume e a variedade dos produtos disponíveis e a presença de balcões e expositores – condições suficientes para que o comerciante pudesse obter um alvará, expedido pela Secretaria Municipal da Fazenda e pela própria Basílica, que regulamentava o uso do espaço e a autorização de funcionamento.

Após idas e vindas, contabilizei 723 barracas, que vendiam, principalmente, roupas e confecções (em grande parte falsificação de famosas marcas), acessórios do vestuário, produtos eletrônicos, CD’s (na quase totalidade dos casos, pirataria) e alimentos. Pode parecer estranho, mas ficou comprovado (mais ainda após ouvir os depoimentos de antigos habitantes da cidade) que, mesmo historicamente, boa parte dos fiéis que se dirigem a Congonhas por ocasião da festa do Jubileu o faz motivado pelo diversificado comércio sazonal, que se estende ainda por uma semana depois da festa religiosa.

As barracas tomavam a frente das tradicionais lojinhas de souvenirs, concorrendo diretamente com os estabelecimentos autorizados, o que não chegava a gerar nenhum conflito. Estas mesmas lojas perenes forneciam os famosos “gatos” de energia elétrica, que possibilitavam a ligação dos diversos aparelhos eletroeletrônicos (liquidificadores, fornos de microondas, aparelhos de som) que alimentavam a agitada feira. A igreja de São José Operário, encravada no meio da ladeira, chegava a desaparecer por trás das ruidosas instalações. O primeiro dia em campo me proporcionou uma ligação quase orgânica com os espaços comerciais e a gente que estava de passagem laboriosa pela cidade.

 

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Aspecto da Rua Bom Jesus, com igreja de São José Operário em segundo plano, Congonhas-MG, setembro/2001. Foto: Luís Américo Bonfim.

A famosa terça-feira amanheceu nublada e com clima bem ameno. Revisitei a Sala dos Milagres, fotografei detalhes da festa, transitei pelas ruas sem pressa, tentando encontrar algo de novo em suspensão. Numa daquelas ruidosas barracas, fui tomado por uma visão que num primeiro instante me pareceu trivial: na tela da TV, um dos ícones da moderna arquitetura norte-americana em chamas. Seria apenas a cena de um filme qualquer, não fosse um crescente burburinho em torno de algo que ainda era muito mal explicado. O máximo volume do pequeno televisor não era suficiente para esclarecer o que acontecia. As pessoas chegavam, curiosas, e suas faces apresentavam sempre o mesmo espanto: “o que está acontecendo???” Naquela época não existiam smartphones e uma conexão com a internet, naquele lugar, era algo restrito apenas a algumas poucas residências. Havia algo errado no mundo, algo que, catastroficamente, ainda não acabara de acontecer, e não sabíamos ao certo o que era. Alguns falavam em acidente, explosão, outros em ataque terrorista. Num piscar de olhos, a TV  transmitia, em tempo real  o choque de outro avião à segunda torre. E em instantes os prédios desmoronavam… A coisa era realmente séria! Muitas outras informações imprecisas começaram a chegar, sempre sob uma dificílima escuta: ataque ao Pentágono, queda de um quarto avião na Pensilvânia. Aquele terceiro dia em campo foi tomado por uma súbita desconcentração e um pavor inesquecível. Um verdadeiro bug numa terça-feira que tinha mesmo tudo para ser diferente…

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