Venezuela

Pintura mural na Rua Franisco Solano López

Pintura mural na Rua Franisco Solano López, Sabana Grande, Caracas, VENEZUELA

A minha passagem pela Venezuela foi curta, mas inquietante. Entrei no país por terra, via BR-174, num velho táxi coletivo que me levou de Boa Vista (RR) até a fronteira, às portas da cidade de Santa Elena de Uairén, numa rara oportunidade em que não estive ao volante. Impressionante a discrepância entre o câmbio oficial e o paralelo. Em frente ao DutyFree, a poucos quilômetros da aduana, um Real valeu quase $7,50 Bolívares “Fuertes”. Oficialmente não encontrei cotação melhor do que $2,20, apesar do site Terra apontar $2,42.
De Santa Elena tomei um ônibus, já à noite, rumo à Ciudad Bolívar. Apesar do carro categoria luxo, com conforto suficiente para uma noite tranquila de sono, as cortinas deveriam permanecer fechadas – e assim foi em todas as viagens rodoviárias que fiz. A recomendação era consequência dos frequentes ataques a pedradas sofridos nas estradas, meras tentativas de assalto, mas com consequências trágicas para os passageiros atingidos. A madrugada foi suficiente apenas para superar a primeira perna da viagem até Caracas. Na sequência, mais um táxi lotação até Barcelona-Puerto La Cruz, e de lá uma freeway até o Distrito Capital. Saldo: um dia e meio vendo o mundo passar…
Permaneci no país entre os dias 18 e 24 de agosto de 2011. Foi o suficiente para conhecer e dispensar um respeitável desejo de envolver na pesquisa o “espiritismo marialoncero”, hibridismo religioso que gira em torno da figura mitológica de María Lionza, numa síntese de matrizes católicas, do espiritualismo indígena e africano, da santería, além de outras tradições locais, integrando santos canonizados, heróis nacionais, curandeiros e bandidos. Os pactos votivos e a amplitude simbólica das “cortes” que circundam a divindade têm um vigor e uma originalidade que fazem das manifestações populares de fé da Venezuela uma referência fundamental nas próximas etapas de trabalho.  Não foi possível chegar à remota Montanha de Sorte, em Chivacoa, estado de Yaracuy, espaço mais expressivo deste culto. Espero, com alguma brevidade, poder me dedicar a este caso com tempo e todos os melhores recursos. Uma publicação da Fundación Bigott, assim apresenta um livreto de Edmundo Bracho, “María Lionza en Venezuela” (2004):
Fenómeno eminentemente venezolano, el culto a María Líonza se ha expresado de manera híbrida, móvil, fragmentaria. A través de una extensa investigación documental y testimonial sobre el mito, su origen y procedencia, el escritor y periodista Edmundo Bracho penetra el cuerpo de esta expresión viva analizando desde los aspectos rituales hasta la interpretación artística del fenómeno. Frente al panteón que sólo nos quiere ofrecer héroes guerreros, el mito de María Lionza se erige para demostrarnos que la feminidad y la maternidad son instancias más arcaicas y más poderosas de nuestro inconsciente colectivo“.
Por outro lado, visitei alguns não menos importantes centros votivos, como o Cementerio General del Sur (tumbas de Lulú María Francia, Victorino Ponce e de mitos da Corte Malandra/Calé de María Lionza: Ismael Sánchez/Ismaelito/El Plana, Elizabeth Castillo, Freddi José Saavedra/El Pavo), a Catedral da Candelaria e a Universidad Central de Venezuela (Dr. José Gregorio Hernandez), todos em Caracas. Também o Cementerio Primavera (tumbas de Jacinta Flores, Dr. e Dra. Gómez Peña) e a igreja de Madre María de San José, na cidade de Maracay, estado de Aragua. Muito pouco, junto do imenso repertório religioso local.
Caracas pareceu-me uma metrópole acolhedora e muito familiar aos brasileiros. Tem os mesmos – seríssimos – problemas de segurança pública que qualquer das nossas grandes cidades. Sua periferia, em geral fincada nas elevações que cercam a cidade, é considerada uma zona permanentemente vermelha. Apesar dos alertas, circular pelas vias principais da capital é relativamente fácil, com um trânsito incrivelmente fluente, mesmo nos horários de pico.
Merece nota especial o ambiente agradabilíssimo da Ciudad Universitaria de Caracas (na Universidad Central de Venezuela). Com o conjunto arquitetônico tombado pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, além de um pavilhão com busto dedicado ao Dr. José Gregório Hernandez (Patrono da Faculdade de Medicina, médico e cientista consagrado e santo popular), a Universidad é famosa pela utilização acadêmica dos espaços informais: em largos e compridíssimos corredores, presenciei aulas e sessões de estudo em grupo, com quadros-negros visivelmente bem aproveitados e alunos de todas as idades espelhados compenetradamente pelo chão. Uma verdadeira Academia!
Pelas ruas, nota-se que a propaganda chavista-nacionalista se espalha por todo canto, país afora. Seja exaltando o líder, em banners gigantescos pendurados em edifícios, seja na comemoração do recente aniversário da Revolução, seja nas obras públicas prontas e apresentadas, as ruas são fartas da presença festiva do Estado. Vi pouquíssimos policiais nas ruas. Também nenhum sinal de vigilância sobre o comportamento do cidadão comum, nem repressão direta ao que se pensa ou que se fala. No entanto, são comuns as (des)apropriações de grandes empreendimentos privados, como no caso do Hotel Hilton, inaugurado em 2007 e logo estatizado. Hoje, serve sobretudo aos venezuelanos, com diárias mais em conta e o mesmo charme e conforto da rede.
Além disso, a programação musical nas rádios venezuelanas é basicamente composta por ritmos nacionais ou caribenhos (especialmente salsa, merengue e son). Em Caracas são poucas as chances de ouvir músicas em inglês tocadas nas rádios (flashbacks ou hits contemporâneos), que sofrem um rigoroso controle ideológico. São comuns propagandas de cunho político-educativo, como se pode ouvir nos links abaixo:
FM1
FM2
Assim, dividido entre “la femininidad y la maternidad” de María Lionza e a discreta tirania de Hugo Chávez, saí da Venezuela certo de que só se ampliam os universos a serem explorados.
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